Um vilão construído nas raias da impunidade
Luciano Chirolli conta como o trabalho com Wagner Moura ajudou-lhe a moldar o inescrupuloso e vingativo Ghirotti
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Xamanismos à parte, o fascínio do mineiro de Poços de Caldas Luciano Chirollli pela obra do diretor chileno Alejandro Jodorowsky vai além da chamada "psicomagia", expressa nas cartas de tarô tiradas por esse autor de livros e HQs seminais e se estande às peças de teatro e aos filmes que ele assina, influenciado uma atuação que hoje reverbera pelo mundo em "O Agente Secreto". O longa-metragem pernambucano ganhador do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa aposta numa trilha que raras produções de lastro sociopolítico das Américas adentram e elege um vilão, daquele tipo mau... feito pica-pau..., que só Hollywood sabe criar, vide tipos vividos por Henry Silva, Michael Ironside, Gene Hackman.
Coube a Chirolli dar corpo a um ferrabrás da alta classe empresarial brasileira, o executivo Henrique Ghirotti, para quem "um banho de indústria" faz bem. Ele não se alinha às figuras violentas do nosso audiovisual cuja crueldade é reflexo do desajuste social e do desemparo do estado, como o Zé Pequeno de "Cidade de Deus" (2002). Bebe daquela vilania clássica, que se explica pela cobiça desmedida e pela impunidade nas leis. Odete Roitman costumava ser o arquétipo máximo desse padrão em nosso imaginário, mas perto de Ghirotti, a ricaça vivida por Beatriz Segall (em 1988) e Débora Bloch (no ano passado), mal saiu do estágio da má índole.
Ghirotti não está sozinho em nossa genealogia cinéfila. Em nossas telonas, tivemos vilões de dar medo antes, mas quase sempre nas chanchadas, imortalizados por José Lewgoy (1920-2003). Contudo, nem o pistoleiro Jesse Gordon, racha-cuca vivido por Lewgoy em "Matar ou Correr" (1954), ruim como ele só, era capaz de prejudicar este país como Henrique Ghirotti, antagonista do professor vivido por Wagner Moura no longa de Kleber Mendonça Filho.
Envolvido numa versão para os palcos de "Fando e Lis", filme de Jodorowsky de 1968, Chirolli é fiel à tese de que a crueldade de Ghirotti vem do eurocentrismo, numa xenofobia latente.
"Sua maldade vem da soberba do homem branco do Sul-Sudeste deste país, num preconceito secular que almeja quebrar a perna do Nordeste. É o representante de um poder que quer impor ordem. Ao interpretá-lo, eu pensei muito: como falar todas as coisas horríveis que ele diz sem reforçar a ofensa explícita? A resposta foi: aparente ser respeitável. Fale mansamente palavras que carregam séculos de intolerância. Quanto mais calma for a fala do vilão, mais ameaçador ele será. De certa forma, Jodorowsky está comigo", diz Chirolli ao Correio.
Há 30 anos, o ator (irmão do jogador de vôlei Xandó) começou a fazer cinema. Debutou ao estrelar o curta-metragem "A Escada" (1996), de Philippe Barcinski. Trazia consigo a bagagem de uma década de teatro profissional (que atualmente totaliza 40 anos), a contar da montagem de "Leonce e Lena", em 1987. Fez outros filmes, brilhou na TV, mas nunca arredou do palco, que lhe valeu o prêmio Shell, em 2010, por "As Três Velhas". O autor desse espetáculo não seria outro que não... Jororowsky, um poeta da metafísica que fez fama também no cinema, depois de rodar "El Topo" (1970).
"Na época da retrospectiva de Jodorowsky no CCBB, em São Paulo, em meados dos anos 2000, eu e minha querida companheira de arte, a atriz Maria Alice Vergueiro, estávamos na pesquisa de textos fortes e vimos um filme dele, 'Santa Sangre'. Saímos tão impactados que começamos a estudar o trabalho dele e fundamos o Grupo Pândega de Teatro Jodorowskiano. Do que o Jodorowsky cria, eu tiro uma consciência de mundo que se aplica até no improviso. No caso de 'O Agente Secreto', não ensaiávamos. Era no tête-à-tête", explica Chirolli.
Na trama filmada por Kleber, coroada em Cannes com a láurea da Crítica e os prêmios de Melhor Direção e Interpretação (para Wagner), estamos no Brasil de 1977, na era Geisel, e Ghirotti (Chirolli) é um representante da Eletrobras que busca controlar a patente que o chefe de departamento da Universidade Federal, no Recife, registrou. Para o emissário engravatado (e não fardado) dos militares, o povo "do Norte" tem um sotaque próprio e faz as coisas de um modo que não condiz com as vontades das oligarquias industriais de São Paulo.
"Ao passar o texto com o Kleber, eu vi a calma com que o Wagner Moura falava, mesmo numa sequência que parecia ser uma reunião tensa. Caiu pra mim, na mesma hora, uma certa ideia de ironia muito cruel, mais explicitada", conta Chirolli. "Caiu também aquela tendência de impor um ritmo de quem tem mais poder, de quem domina a fala na mesa, por se achar a autoridade da mesa. Ghirotti acredita nisso por ser do Sudeste, filho de italiano, branco, de olhos azuis. Ali, o meu personagem vai acusar o do Wagner de ser comunista, de ter planos que ameaçam os meus planos. Mas sinto o Wagner calmo, olhando sereno para as outras pessoas, e percebo uma solidariedade ali que me quebra as pernas em relação a coisas que eu já tinha pensado. Não improviso. Troco essa energia com ele. Aquilo vira uma conversa civilizada, mas com profundo ódio e preconceito nessas falas supostamente civilizadas. Aí resolvo responder tudo, toda provocação, todo impulso, sempre no registro sub-reptício. O tempo todo nesse estado de sub-reptício. Aí eu entendi quem eu era ali".
Ator na montagem que Walter Lima Jr. fez de "Hedda Gabler" (em parceria com o mestre da literatura Rubem Fonseca), na segunda metade dos anos 2000, Chirolli elogia a coragem de Kleber em seu retrato do Brasil.
"Ele pega Pernambuco - com toda a inteligência, o humor e a grandeza de seu estado - e leva isso para o mundo. Recife está expresso ali na direção de arte e no figurino, deslumbrantes. O filme trata de silenciamento num momento em que a nossa memória volta a ser ameaçada", analisa Chirolli. "É um apelo à responsabilidade histórica. Um filme que pede atenção ao mundo a partir de uma história local. Esse é o poder do cinema de autor: ser universal ao cantar a sua aldeia".