CRÍTICA / FILME / HAMNET: Ser ou não ser tolerante

Por por Rodrigo Fonseca

Agnes e Will antes de se abrirem as feridas de 'Hamnet'

Montado com precisão helvética pelo paulistano Affonso Gonçalves, "Hamnet: A Vida Antes De Hamlet" se enquadra no módulo empático com que a chinesa radicada nos EUA Chloé Zhao vê a acomodação de feridas, erigido por ela tanto em expressões intimistas como "Domando o Destino" (2017) quanto na superprodução pop "Eternos" (2021), um dos mais inspirados filmes da Marvel. A maneira com que ela analisa pessoas alquebradas pela vida (e quase sempre abandonadas) é empregada na reconstituição da Inglaterra de 1580.

Lá ela encontra a história de um descarte... sentimental... ao saber da ambição por sucesso e consagração do professor de latim sem dinheiro Will, cujo sobrenome é Shakespeare. O papel é do irregular Paul Mescal. O salto que ele vai dar na vida depende de Agnes, a razão de ser do relato que Chloé partilha com a plateia, transformado em longa a partir de um orçamento de US$ 30 milhões, apoiado por Steven Spielberg. De espírito livre, Agnes é capaz de abraçar o mundo com seu ardor, bem traduzido na atuação demolidora de Jessie Buckley (corada com o Globo de Ouro no último domingo).

Fascinados um pelo outro, os dois iniciam um romance apaixonado, acabando por se casar e ter três filhos. Enquanto Will tenta a sorte como dramaturgo em Londres, Agnes assume sozinha todas as responsabilidades domésticas. Quando uma tragédia acontece, o vínculo do casal, antes profundamente unido, começa a vacilar. No entanto, é a partir das dificuldades compartilhadas que nasce a inspiração para uma obra-prima do teatro. Nasce também um filme de muita quietude, que exaspera ao expor modos de lidar com feridas incuráveis. É como "Nomadland" (2020), que deu o Oscar e o Leão de Ouro a Chloé, mas num pretérito das narrativas ocidentais.