Fantástica é a existência do Teddy
Láurea queer mais famosa do cinema chega aos 40 anos e comemora a data com mostra na Berlinale, que resgata produções como o cult de Sebastián Lelio contra a transfobia
Láurea queer mais famosa do cinema chega aos 40 anos e comemora a data com mostra na Berlinale, que resgata produções como o cult de Sebastián Lelio contra a transfobia
Único longa-metragem de ficção chileno a conquistar o Oscar, consagrado na vereda de Melhor Filme Internacional, "Uma Mulher Fantástica" vai ganhar uma sobrevida nas telas em meio à comemoração que a 76ª Berlinale prepara para o aniversário de 40 anos do troféu Teddy. O ursinho de carinha marota que representa essa láurea emprestou feições otimistas à mais simbólica das premiações do cinema mundial na representatividade da comunidade queer. Debates contra a homofobia e a transfobia ganharam tradução em imagens em movimento entre as produções galardoadas com esse mimo de resistência de 1987 até hoje.
Por isso, o Festival de Berlim, agendado de 12 a 22 de fevereiro, vai promover uma revisão de alguns dos mais lendários ganhadores desse prêmio com direito a projeção de "Queens Don't Cry", um dos sucessos do mítico Rosa von Praunheim (1942-2025), realizador notório por sua luta em prol dos direitos dos gays, morto em dezembro.
Numa aula de diversidade a mostra Teddy 40, da Berlinale, junta cults multinacionais egressos da Argentina ("Playback. Ensayo de una despedida", de Agustina Comedi), dos EUA "The Watermelon Woman", de Cheryl Dunye), da França ("Tomboy", de Céline Sciamma) e mais uma leva de nações. A filmografia chilena acaba por se impor pelo êxito de "Uma Mujer Fantástica" em salas de todo o mundo a partir de sua primeira projeção, em 2017, lá mesmo, na capital alemã. Saiu de lá com o Urso de Prata de Melhor Roteiro e com a láurea LGBTQIAP da maratona cinéfila berlinense, consagrando seu diretor, Sebastián Lelio.
"Eu venho de uma geração que começou a filmar num país culturalmente açodado por uma ditadura e que, apesar dela, atravessou os anos 1970 produzindo uma arte de resistência e de ousadia formal. Aprendi a fazer cinema tendo a criatividade dos grandes filmes daqueles anos de luta como um farol, e isso me levou a ficar sempre atento à necessidade de poder construir histórias e personagens que não pudessem ser rotulados com uma única palavra. Creio em filmes que misturam gêneros, que surpreendem", disse Lelio ao Correio da manhã na Berlinale. "Não vejo 'Uma mulher fantástica' como a angústia de uma trans e sim como uma narrativa sobre a capacidade que alguém tem de se transformar e encarar a intolerância do mundo à mudança. A personagem de Daniela já assumiu quem é e está pronta para viver sua identidade. O mundo é que não parece estar pronto pra ela".
Ocupado hoje com os projetos "Poeta Chileno" e "Voyagers", Lelio levou a Cannes, no ano passado, o musical "A Onda", centrado na luta de mulheres latinas contra violência de gênero. Em 2022, concorreu à Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, na Espanha, com o cult "O Milagre", hoje na Netflix. Fez sucesso no passado ainda com "Desobediência" (2017), no qual volta cruzar limites morais, agora falando da homoafetividade no seio da ortodoxia judaica: banida de sua comunidade pelo affair que teve com uma amiga no passado, Ronit (Rachel Weisz) regressa às suas raízes, mas cai de amores pela mulher do rabino em sua volta ao lar.
"Gosto de histórias sobre pessoas que enfrentam restrições à sua felicidade", disse Lelio, que brilhou na direção do remake americano de seu primeiro sucesso: "Gloria" (2013), que revelou a atriz chilena Paulina García (de "A noiva do deserto") para o mundo, tendo Julianne Moore no papel de uma cinquentona que busca fruir seu desejo sem paranoias sociais etaristas. "Concebi 'Gloria' como um ensaio impressionista sobre as amarguras e doçuras que encontramos no caminho ao amar".
No dia 20 de janeiro, a atual diretora artística da Berlinale, a curadora Tricia Tuttle, anuncia os títulos em competição. Suspeita-se da presença da adaptação que Anna Muylaert ("Que Horas Ela Volta?") fez da canção "Geni e o Zeppelin", de Chico Buarque - mas nada foi oficialmente confirmado. A voz autoral brasileira mais evocada nas triagens do que poderia concorrer ao Urso dourado é o cineasta cearense Karim Aïnouz, onipresente na cena audiovisual estrangeira. Ele acaba de integrar o júri de Marrakech. Seu novo trabalho, contudo, é uma produção rodada na Espanha, de medula gringa: "Rosebush Pruning". Com gênese amalgamada ao cult italiano "De Punhos Cerrados" (1965), de Marco Bellocchio, o novo Karim acompanha os conflitos de uma família que luta contra doenças genéticas no coração de uma propriedade rural. Seu time de estrelas inclui Pamela Anderson, Elle Fanning, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell (o eterno "Billy Elliot"), Lukas Gage, Tracy Letts e Elena Anaya. A produção é da MUBI, The Match Factory e The Apartment (uma empresa Fremantle).
No exterior, algumas produções há muito anunciadas carregam expectativa de estarem lá, como "The Way Of The Wind", de Terrence Malick, sobre a vida de Jesus Cristo. Fala-se muito ainda do novo drama do diretor português João Canijo: "Encenação", com Beatriz Batarda. Ele foi premiado lá em 2023 com "Mal Viver". O galês Peter Greenway, sumido há quase uma década, pode regressar com "Tower Stories", tendo Dustin Hoffman como ator principal.
É dada como certa a presença do thriller de horror feminista "The Bride", releitura da atriz e cineasta Maggie Gyllenhaal para o mito da Noiva de Frankenstein, com Jessie Buckley no papel título e Christian Bale como o monstro. Penélope Cruz também está nesse filme. Na linha de elencos estelares, Zendaya e Robert Pattinson podem dar o ar de sua graça no Berlinale Palast à frente do longa "The Drama", sobre as angústias de um casal às turras. Aguarda-se também a convocação de "O Vale do Imaginário" ("Bucking Fastard"), que o artesão autoral Werner Herzog, rodou com as irmãs Kate e Rooney Mara.
