Profissão resistência
Cineasta vencedor da Palma de Ouro, Jafar Panahi enfrenta nova condenação enquanto participa da temporada de premiações nos EUA e, mesmo assim, pretende retornar ao Irã
Cineasta vencedor da Palma de Ouro, Jafar Panahi enfrenta nova condenação enquanto participa da temporada de premiações nos EUA e, mesmo assim, pretende retornar ao Irã
Jafar Panahi já conhece bem o preço da resistência. Aos 65 anos, o cineasta iraniano transformou a censura em matéria-prima artística e fez da clandestinidade seu método de trabalho. Agora, mesmo com uma sentença de um ano de prisão à sua espera no Irã, ele anuncia que retornará ao país natal assim que concluir a campanha de seu mais recente filme nos Estados Unidos. A decisão controversa revela a essência de um artista que recusa o exílio como solução.
"Foi Apenas um Acidente", seu longa mais recente, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em maio de 2025 e segue em campanha para o Oscar de melhor filme internacional, despois de ser superado pelo brasileiro "O Agente Secreto" na corrida pelo Globo de Ouro. "Para um cineasta, cada prêmio é um prazer e foi necessário muito trabalho para ganhar este troféu", disse Panahi em Cannes, com a Palma nas mãos. "Em um determinado momento, eu tinha muitas imagens diferentes passando pela minha cabeça. Estava pensando em todos os rostos dos meus amigos que estavam na prisão comigo. Naquela época, nós estávamos na cadeia, mas o povo iraniano estava nas ruas lutando pela liberdade. Naquele momento, eu disse a mim mesmo que estava feliz por eles. "Eu aprendi com 'Táxi Teerã' a filmar em veículos em movimento. Num carro, você se sente em segurança", disse Panahi em Cannes, entrando em detalhes de uma de suas detenções. "Eu fui vendado e levado para uma cela tão pequena que eu mal podia me mexer. Lá eu colhi histórias que compõem o roteiro desse meu novo filme", contou.
"Foi Apenas um Acidente" é talvez o filme mais explicitamente político de Panahi até hoje. A trama acompanha um homem chamado Vahid que, após anos de prisão política, acredita reconhecer seu antigo torturador numa rua do Irã. O encontro fortuito desencadeia uma jornada tensa pela estrada, onde um grupo heterogêneo de ex-prisioneiros políticos e cidadãos comuns se envolve numa intrincada trama sobre vingança, justiça moral e as escolhas que os sobreviventes de traumas precisam fazer. Descrito pela crítica como parte thriller de vingança, parte comédia de estrada e parte parábola moral, o filme alterna cenas de humor inesperado com uma tensão constante, mantendo o estilo minimalista característico de seu realizador.
Coprodução entre Irã, França e Luxemburgo, a obra foi produzida pelo próprio Panahi em colaboração com Philippe Martin, da produtora parisiense Les Films Pelléas, mesma empresa por trás de "Anatomia de uma Queda", de Justine Triet. A crítica internacional tem destacado a coragem do cineasta em criar uma obra abertamente crítica ao regime enquanto ainda enfrenta perseguição, transformando o filme num ato de resistência cinematográfica. Com câmera na mão e longas tomadas que criam atmosfera quase documental, Panahi trabalha com atores não profissionais para alcançar um realismo cru e imersivo.
Mas enquanto celebra o reconhecimento internacional, Panahi enfrenta uma nova condenação do Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerã por "atividades de propaganda" contra o regime iraniano, numa sentença anunciada em dezembro que também o proíbe de viajar para fora do país por dois anos.
Em entrevista ao Hollywood Reporter, o diretor foi categórico sobre sua decisão de voltar. "Para mim, não faz diferença o que as pessoas pensam ou entendem sobre a minha decisão. O importante é ser fiel ao que eu sinto", afirmou. E completou: "Conheço o contexto do meu país. Conheço a cultura, o idioma, o cotidiano. Conheço os murmúrios diários daquela cultura e daquela sociedade e é aí que posso trabalhar", explica.
A perseguição das autoridades iranianas ao
Mas Panahi não se calou. Mesmo sob vigilância constante, continuou filmando na clandestinidade. Produziu "Isto Não É Um Filme" (2011) dentro de seu apartamento durante a prisão domiciliar, contrabandeando o material do país dentro de um pen drive escondido num bolo. Seguiram-se outros trabalhos realizados em segredo, como o premiado "Táxi Teerã" (2015) - Urso de Ouro do Festival de Berlim - desafiando a proibição oficial e transformando as próprias restrições numa poderosa narrativa em prol das liberdades democráticas.
Em julho de 2022, Panahi foi preso novamente ao buscar informações sobre dois colegas cineastas também detidos, Mohammad Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad. Levado à prisão de Evin, em Teerã, conhecida por abrigar presos políticos, iniciou uma greve de fome em fevereiro de 2023 como protesto contra o que chamou de "tomada de reféns" pelo regime. Só após o jejum conseguiu direito a representação legal. Foi libertado meses depois, mas sua luta não terminou.
Panahi faz questão de situar sua resistência num contexto mais amplo. Citou o cineasta Ali Ahmadzadeh, cujo set foi invadido e equipamentos confiscados, deixando-o com dívidas de aluguel sem poder filmar. Mencionou também Behtash Sanaeeha e sua esposa, Maryam Moghaddam, diretores de "Meu Bolo Favorito", impedidos de deixar o Irã e de trabalhar após o filme circular internacionalmente. "Todos nós compartilhamos essa dor e todos nós aceitamos o preço por ela", declarou.
