Deu Brasil, em dose dupla, no Globo de Ouro
‘O Agente Secreto’ conquista o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e seu astro, Wagner Moura, vence como Melhor Ator de Drama na cerimônia da imprensa cinéfila
‘O Agente Secreto’ conquista o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e seu astro, Wagner Moura, vence como Melhor Ator de Drama na cerimônia da imprensa cinéfila
Pelo segundo ano consecutivo, o Globo de Ouro é o Brasil... e em dose dupla: doze meses depois de a carioca Fernanda Torres (com “Ainda Estou Aqui”) arrebatar a estatueta concedida anualmente, desde a década de 1940, pela imprensa especializada, foi a vez de “O Agente Secreto” acalentar os corações cinéfilos deste país. Seu protagonista, o baiano de Rodelas Wagner Moura, venceu também e, no palco, falando português, cravou um “Viva o Brasil!”, antes de dizer “Acredito que, se traumas podem ser passados geração após geração, valores também podem”, numa referência à resistência de seu personagem à abusos de Poder num governo fardado. Antes de Wagner emocionar o Beverly Hilton, sede da festa, coube à dupla Minie Driver e Orlando Bloom anunciarem a vitória do thriller dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho na categoria Melhor Filme Internacional. Ele derrotou mestres das mais variadas latitudes geográficas (o norueguês Joachim Trier, o iraniano Jafar Panahi, o sul-coreano Park Chan-wook, a tunisiana Kaouther Ben Hania e o galego Oliver Laxe).
“Alô, Brasil! Dedico esse prêmio para jovens cineastas, pois este é um momento importante para se fazer cinema”, disse o realizador.
Crítico profissional ao longo de 13 anos, o jornalista do Recife que trocou a reportagem por uma carreira como diretor conseguiu um feito invejável para quem milita na imprensa cinematográfica ao ganhar a capa da revista “Cahiers du Cinéma”, a Bíblia do audiovisual, com seu novo (e originalíssimo) longa-metragem. Vista por 1,1 milhão de pagantes em nossas salas, a produção recebeu quatro prêmios no Festival de Cannes: Melhor Direção, Melhor Ator (para um Wagner Moura em estado de graça), láurea da Crítica e láurea da Associação de Cinemas de Arte e Ensaio. Eleito o Filme do Ano pela Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ), esse thriller se passa em 1977 e abraça a palavra “pirraça” para traduzir o zeitgesit do Brasil de Ernesto Geisel, sem usar a palavra “ditadura”. Naquele ano, no enredo, um pesquisador viúvo (papel de Wagner) regressa ao Recife para buscar seu filho e é caçado por assassinos. Crocante do início ao fim, a narrativa conta com desempenhos inspirados de Roney Villela (entre os matadores) e de Carlos Francisco, que vive um projecionista.
“Nós temos vários focos de tensão no mundo hoje, mas vários olheiros do cinema americano que viram ‘O Agente Secreto’ disseram que o Brasil, neste momento, é uma reserva de alguma sanidade”, contou Kleber em recente entrevista ao Correio da Manhã, na Europa.
Conduzidos pela comediante Nikki Glaser, os Globos de Ouro tiveram como principal vencedor de 2026 o thriller de tintas cômicas ácidas “Uma Batalha Após A Outra” (“One Battle After The Other”), de Paul Thomas Anderson. O cineasta venceu as estatuetas de Melhor Direção e de Melhor Roteiro, e foi buscar ainda a de Melhor Filme de Comédia/Musical. Concederam ainda a seu filmaço o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante, dado para Teyana Taylor, que simboliza toda a excelência (e toda a relevância política) de sua narrativa. O papel dela, Perfidia Beverly Hills, é “A” personagem desta temporada. Teyana só precisou de um punhado de minutos em cena para se fazer onipresente, como vetor de empuxo na vida de homens que a amaram (ou a desejaram) capaz de expor racismos institucionalizados pelo país que elegeu Donald Trump, sem vergonha da xenofobia que ele encampa em sua política de extrema direita. Ela deixou uma filha, hoje adolescente (Chase Infiniti), pela qual o especialista em explosivos Pat (Leonardo DiCaprio, com jeitão de Grande Lebowski) zela com todo amor. O problema de Pat é o militar Lockjaw, um oficial imparável em seu predatismo contra grupos revolucionários (vivido por um assombroso Sean Penn). Ele teve um trelelê com Perfidia lá atrás e não se desgarrou da lembrança dela. Numa corrida para proteger sua filha, traduzida em tomadas vertiginosas, o personagem borracho de DiCaprio reinventa o conceito do looser numa sociedade pautada pelo lucro, assegurando ao realizador de cults como “Magnólia” (Urso de Ouro de 2000) e “Sangue Negro” (2007) mais uma obra-prima.
“Eu aceito esse prêmio porque eu adoro fazer o que eu faço”, disse Thomas Anderson, ao receber o troféu de Direção das mãos de um mestre da gargalhada, o realizador Judd Apatow (de “O Vigem de 40 Anos”), que botou a festança da Golden Globe Foundation no bolso ao ironizar as regras de premiação do cinemão (“Deram um prêmio de Melhor Comédia para ‘Perdido em Marte’, do Ridley Scott... um diretor que fez comédias como... ‘Gladiador’) e ainda ironizou Trump (“Nós saímos do covid-19 e caímos numa ditadura”).
O único discurso mais possante que o de Apatow foi o do sueco Stellan Skarsgård, depois de ganhar o Globo de Melhor Ator Coadjuvante por “Valor Sentimental”, da Noruega. Ao avaliar sua travessia de quase seis décadas pelas telas, o astro (coroado pelo papel de um cineasta em enfrentamento com as filhas) cravou: “Cinema é para ser visto no cinema”.
No território das melhores atuações dramáticas, Jessie Buckley foi galardoada como Melhor Atriz por “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, que encerrou o Festival do Rio e já entrou em pré-estreia no Brasil. Ela vive a companheira de William Shakespeare que sofre com a perda de um filho. Coube a este tristíssimo estudo sobre resiliências o Globo de Melhor Drama. Steven Spielberg foi seu produtor.
Pilar das lutas decoloniais, “Pecadores” (“Sinners”) esfregou seu êxito comercial de receita invejável na cara dos rivais ao deixar o Beverly Hilton com o troféu criado pela Golden Globe Foundation para acalentar blockbusters (títulos que faturam para além de US$ 100 milhões): o troféu de Conquista Cinematográfica e Bilheteria. Mas a pérola de Ryan Coogler brilhou muito mais. O Globo de Melhor Trilha Sonora foi dado a este exemplar do filão terror antirracista, o mesmo que nos deu “Corra!” (2017), só que com vampiros e com a Ku Klux Klan a atazanar os juízos de dois empresários do ramo da Caninha da Roça que dão ao blues lugar de honra em seus negócios. Os negociantes em questão, irmãos gêmeos, têm o ator Michael B. Jordan, da franquia “Creed” (2015-2023), como intérpretes, numa atuação em (duplo) estado de graça. Os manos Moore, Elijah Smoke e Elias Stack, tornaram-se símbolos da peleja mundial contra o preconceito racial. Sua trama põe sugadores de sangue num bar de beira de estrada, no Mississippi pós I Guerra, na qual múltiplas ancestralidades egressas da África se manifestam. Seu faturamento beirou US$ 364 milhões. Hoje na HBO Max, o filme arrebata uma tonelada de fãs no streaming.
Primeira estreia deste ano em circuito nacional, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” rendeu a láurea de Melhor Atriz Comédia/Musical para Rose Byrne, assegurando a passagem dela a um outro patamar de respeitabilidade na indústria. O longa, no qual ela interpreta (muito bem) uma terapeuta exasperada, oprimida pela condição debilitada de saúde de sua filha e por uma ausência contínua do marido militar, rendera a ela o Urso de Prata da Berlinale e aplausos do Festival de Sundance. Após a consagração dela, Timothée Chalamet foi chamado ao palco pra buscar o (mais do que merecido) troféu de Melhor Ator por seu desempenho como um ás do tênis de mesa. Em dezembro, o ator (indicado ano passado por “Um Completo Desconhecido”) passou por São Paulo, na Comic-Com Experience, para divulgar a produção.Há tempos, acabou-se a lenda de que quem ganha o Globo dourado levará o Oscar, sem tirar nem por. Muitas produções aclamadas lá no Beverly Hilton, na sequência, ficaram à míngua na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que tem o seu próprio colegiado, tipo “Babel”, “Dreamgirls” e “1917”. Quem mais influencia a aritmética que leva um longa-metragem ou um(a) artista a se “oscarizar” são associações sindicais dos EUA, sobretudo o Screen Actors Guild e o Producers Guild of America. O número de votantes de ambas é alto.
No entanto, vencer o Globo de Ouro assegura a quem ganha maior visibilidade do mercado, com aumento potencial de venda de ingresso e crescimento em popularidade, fora o prestígio de passar no crivo de cerca de 300 votantes, de 76 países. Isso faz a massa de acadêmicas/os de Hollywood repensarem pré-conceitos (e preconceitos).
Um novo horizonte se abriu para a premiação, desde que a Golden Globe Foundation tomou as rédeas dessa tradicional consagração ao esforço artístico num momento em que sua gestora anterior, a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), estrava em crise. Uma renovação se fez ali, a partir do Beverly Hilton.
Devassada por polêmicas na chegada dos anos 2020, a HFPA abriu suas portas em 1943, com o objetivo de estimular a circulação de notícias ligadas ao mais popular motel platônico do século XX – o cinema – para além dos muros dos Estados Unidos, tendo como principal chamariz de seu trabalho a organização de um prêmio anual: o tal Globo de Ouro. A primeira cerimônia em que a láurea foi concedida ocorreu em 1944, no estúdio 20th Century Fox, de olho nos magnatas da indústria. Seu primeiro vencedor foi “A Canção de Bernardette” (“The Song of Bernadette”), que conquistou vitórias nas disputas de Melhor Filme, Direção (Henry King) e Atriz (Jennifer Jones). Seu troféu – caracterizado por uma reprodução da esfera terrestre rodeada por uma película de filme cinematográfico – teve vários designers ao longo das últimas oito décadas. A versão distribuída atualmente pesa cerca de 3,5 quilos; é feita de latão, zinco e bronze; mede 11,5 polegadas, acoplando-se a uma base retangular, vertical, de notável elegância. De 1950 até 2022, guerras internas – de egos e de condutas profissionais questionadas em parâmetros éticos – quase levou a festa de entrega dessa estatueta à extinção, sob a acusação de abusos de poder, falta de representatividade (das populações negras, asiáticas, indígenas) e sexismo. Brendan Fraser, oscarizado por “A Baleia”, em 2023, foi um dos mais críticos opositores ao que se fazia nos bastidores dessa estatueta.
A ameaça de cancelamento reinou sob as cabeças da HFPA até uma revitalização, em 2023, já sob as engrenagens da Golden Globe Foundation. Essa lanternagem (ética e estética) dá ao contingente de profissionais de mídia envolvidos em sua realização a chance de abrir as atividades para 2026 abençoada por toda a nata do entretenimento.
Com a reformulação, a composição de seus integrantes com direito a voto se ampliou e se diversificou em esfera multicultural. A prova é que, no âmbito das animações, o placar da noite foi aberto com a vitória da canção “Golden”, o hit de matriz asiática que ajudou a fazer de “Guerreiras do K-Pop” um fenômeno estroboscópico à altura da linhagem sul-coreana que ele representa... embora radicado na Netflix. Lá pelo meio do evento, a mesma equipe foi convocada para receber o prêmio de Melhor Longa Animado.
No próximo dia 22, saem as indicações para o Oscar, que entrega suas estatuetas no dia 15 de março.
VITÓRIAS DA CERIMÔNIA
DRAMA
Melhor Filme: “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”)
Melhor Atriz: Jessie Buckley (“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”)
Melhor Ator: Wagner Moura (“O Agente Secreto”
COMÉDIA/ MUSICAL
Melhor Filme: “Uma Batalha Após A Outra”
Melhor Atriz: Rose Byrne (“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”)
Melhor Ator: Timothée Chalamet (“Marty Supreme”)
Conquista Cinematográfica e Bilheteria: “Pecadores”
Série de Drama: “The Pitt”
Série de Comédia: “O Estúdio”
Direção de longa-metragem: Paul Thomas Anderson (“Uma Batalha Após A Outra”)
Atriz Coadjuvante: Teyona Taylor (“Uma Batalha Após A Outra”)
Ator Coadjuvante: Stellan Skarsgård (“Valor Sentimental”)
Roteiro: Paul Thomas Anderson (“Uma Batalha Após A Outra”)
Animação: “Guerreiras do K-Pop”
Filme de Língua Não Inglesa: “O Agete Secreto”
Trilha sonora: Ludwig Göransson (“Pecadores”)
Canção Original: “Golden” (“Guerreiras do K-Pop”)
