Rumo ao Oscar, com escala no Globo de Ouro
Ao conquistar o Critics' Choice Award, dos EUA, no domingo, 'O Agente Secreto' contabiliza 43 prêmios no currículo, desde sua estreia avassaltora em Cannes
Ao conquistar o Critics' Choice Award, dos EUA, no domingo, 'O Agente Secreto' contabiliza 43 prêmios no currículo, desde sua estreia avassaltora em Cannes
Depois de desbancar produções aclamadas de medalhões como o iraniano ganhador da Palma de Ouro Jafar Panari ("Foi Apenas Um Acidente") e Park Chan-wook ("A Única Saída") na briga pelo Critic's Choice Award de Melhor Filme de Língua Estrangeira, entregue no domingo, "O Agente Secreto" abriu o ano numa posição dianteira... das mais estratégicas... na corrida pelo Oscar 2026. Pelas contas do Internet Movie DataBase (IMDB, o maior banco de dados online da indústria audiovisual), o longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho soma até agora 43 prêmios.
Sua vitória, há dois dias, na premiação realizada no Barker Hangar, em Santa Monica, nos EUA, teve um gosto de consagração e de revanche. Além de derrotar concorrentes de prestígio, entre os quais o thriller metafísico espanhol "Sirât" e o drama judicial argentino "Belén", a dupla formada por Kleber e seu protagonista, o baiano Wagner Moura, foi escalada para anunciar a categoria Melhor Filme, que consagrou "Uma Batalha Após A Outra" ("One Battle After Another"), de Paul Thomas Anderson. É difícil ver artistas não americanos nessa função. Mais raro ainda é ver um par de brasileiros.
No palco, ao lado do cineasta do Recife, o eterno Capitão Nascimento, egresso de Rodelas (BA), alcançou um brilho extra, ao tirar sarro da cultura cinéfila dos Estados Unidos, que, avessa a títulos legendados, preferiu anunciar quem foi o ganhador da competição estrangeira antes da cerimônia começar. No que o diretor de cults como "O Som ao Redor" (2012) falou "Agora, é uma honra apresentar a categoria de Melhor Filme", Wagner não deixou a peteca cair e arpoou o público ao dizer: "Ou, como chamamos no meu país, Melhor Filme Estrangeiro".
O Critics' Choice Awards (outrora chamado de Broadcast Film Critics Association Award) nasceu em 1996. Em 2004, "Cidade de Deus" concorreu entre os eleitos da crítica. Ano passado, houve vaga lá para "Ainda Estou Aqui", que deu o Oscar a Walter Salles. A festa de 2026, comandada por Chelsea Handler, rendeu uma alegria a mais para o cinema nacional, ao coroar o diretor de fotografia paulista Adolpho Veloso por "Sonhos de Trem" ("Train Dreams"), hoje na grade da Netflix. Uma curiosidade de seu placar é ver uma categoria dedicada a um filão historicamente esnobado em grandes premiações: comédia. O Melhor Filme Cômico foi a versão anos 2000 de "Corra Que A Polícia Vem Aí!" ("The Naked Gun"), com Liam Neeson e Pamela Anderson.
Depois de sair premiado no crivo do Critics' Choice Award, "O Agente Secreto" pode despertar um novo interesse das plateias pagantes da América e até ampliar seu circuito estadunidense. A prova de fogo maior do thriller ambientado em 1977 acontecerá neste domingo, no Beverly Hilton Hotel, onde o longa concorrerá aos Globo de Ouros de Melhor Filme, Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator, com Wagner Moura sob a ribalta. Fernanda Torres saiu de lá com uma estatueta, em janeiro passado, por "Ainda Estou Aqui". Na virada deste mês, será a vez de o cult de Kleber tentar a sorte no Festival de Roterdã (primeira das grandes mostras europeias anuais de cinema), agendado de 29 de janeiro a 8 de fevereiro, na Holanda, onde pode ganhar o mimo do júri popular.
Fora isso, seu destino é esperar as indicações do Oscar, que saem no próximo dia 22. A farra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ficou para 15 de março. Nessa espera, a produção, lançada aqui pela Vitrine Filmes (e lá fora pela Neon), pode ampliar seu público. A venda de entradas em território nacional beira 1,2 milhão, desde novembro, o que fez de "O Agente Secreto" o maior sucesso de arrecadação brasileiro entre os títulos que foram distribuídos a partir de janeiro de 2025. Seu êxito foi vitaminado por suas conquistas no mais prestigioso festival do mundo, Cannes, em maio, de onde saiu com quatro prêmios. O júri oficial, presidido pela atriz francesa Juliette Binoche, concedeu a Kleber o troféu de Melhor Direção e deu a Wagner o de Melhor Intepretação Masculina. A Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) conferiu ao realizador de "Aquarius" (2016) o Prêmio da Crítica. Houve ainda uma láurea da Associação de Cinemas de Arte e Ensaio.
Eleito Melhor Filme de 2025 pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), "O Agente Secreto" segue os passos de um cientista e professor (papel de Wagner) ligado à universidade pública de Pernambuco que regressa ao Recife sob a identidade de Marcelo, sendo alocado numa repartição pública ligada à emissão e ao arquivamento de identidades. Em sua volta, ele é alvo de perigosos assassinos e precisa se manter vivo a fim de retomar o convívio com seu filho pequeno, que foi obrigado a deixar com os avós maternos, para evitar riscos. A mãe do menino "morreu". Cabe ao personagem proteger o garoto, no Brasil da ditadura militar - período que o longa define com o uso da expressão "época de pirraça".
"Pirraça é algo que resiste no comportamento humano e tem um som muito particular, que vai além do sugerido pelo verbete. Ao utilizar a palavra, no cinema, eu crio uma conexão com a língua portuguesa e seus extremos", disse Kleber ao Correio da Manhã, via Zoom, elogiando a troca com Wagner. "Firmamos uma parceria forte, para a vida".
