Agnès Varda em revista

Circuito Estação passa em revista os curtas e longas da realizadora mais icônica do feminismo

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Agnès Varda saiu de cena há seis anos, após uma batalha contra um câncer no seio. Morreu um mês depois de lançar 'Varda por Agnès' (2019), que pode ser visto no Estação Botafogo no dia 13

Circuito Estação passa em revista os curtas e longas da realizadora mais icônica do feminismo

Desde que o ensaio documental "Varda por Agnès" (2019) chegou às telas do Rio de Janeiro, na esteira de sua estreia mundial (ocorrida na Alemanha, numa sessão de gala da Berlinale), um boneco de sua diretora mora nas salas do Grupo Estação. Vez por outra, no complexo de Botafogo, o diretor e produtor Cavi Borges, agitador cultural de prontidão no espaço, posa para fotos agarrado àquela figura, símbolo do feminismo no audiovisual.

A partir da semana que vem, o legado da belga Agnès Varda (1928-2019) ficará entranhado nos cinemas da Voluntários da Pátria n° 88 e do Shopping da Gávea, que vão hospedar uma retrospectiva de seus sucessos. "De Lá Pra Cá - Uma Mostra Da Varda" mobilizará a cidade de 7 a 21 de janeiro. Tudo começa com a projeção de "Cléo das 5 às 7" (1962), às 20h30, no Est. Botafogo.

Na Europa, berço da artista, o livro "Viva Varda!" mobiliza livrarias e revistarias. Esse tijolaço de 224 páginas, editado por Florence Tissot e publicado pela Martiniere BL, acompanha a primeira exposição retrospectiva da realizadora de "La Pointe Courte" (1955), organizada pela Cinemateca Francesa. O volume reúne ensaios de especialistas e uma filmografia comentada. O prefácio é de Costa-Gavras. O miolo é ilustrado com mais de 300 documentos (arquivos, fotogramas de filmes, fotografias), muitos deles inéditos, extraídos dos arquivos pessoais de Agnès, mantidos pela Ciné-Tamaris, a empresa familiar que ela fundou. A administração da produtora é feita por sua filha, a figurinista Rosalie Varda, e o filho, o ator e também diretor Mathieu Demy, fruto de sua união com o divo francês dos musicais Jacques Demy (1931-1990).

"Minha mãe passou os últimos 15 anos dedicada às artes visuais, explorando um formato de instalação em vídeo. Pouca gente conhece a fundo o que ela fez nesse período. Assim como poucos jovens de hoje conhecem os filmes que Demy rodou. O legado deles precisa seguir adiante e ser prestigiado pelas novas gerações", disse Rosalie ao Correio da Manhã em recente entrevista em Paris.

Divulgação - 'La Pointe Courte' é encarado hoje como o pavimento da Nouvelle Vague, lançado em 1955

Recentes revisões históricas sugerem que "La Pointe Courte", um drama amoroso, seja o pavimento inicial da Nouvelle Vague, o movimento responsável por modernizar (não só tecnicamente como também na reflexão filosófica) a criação do discurso audiovisual, no fim dos anos 1950. Esse nome ("nova onda") batizou o filmaço mais recente de Richard Linklater, hoje em cartaz, que tem a jovem Varda numa sequência. O prestígio dela só cresce.

Na trama de "La Pointe Courte", a ser exibido no Estação Botafogo no dia 9, às 18h55, um casal em crise retorna para o pequeno vilarejo do título, no qual Lui, o marido (vivido por Philippe Noiret), viveu sua infância. Regressar ao berço pode ser um meio de reaver o carinho de sua parceira, Elle (Silvia Monfort). No local, os dois vivem momentos de reflexão sobre seu relacionamento, ao mesmo tempo em que o cotidiano dos moradores flui ao seu redor. É uma cartografia de vivências feita sob uma ótica que o cinema desconhecia até então. Ali, o vulcão Varda entrou em erupção, gerando joias como "O Amor dos Leões" (1969).

Neste momento em que a falta de equidade salarial entre gêneros, oriunda do sexismo, torna-se uma das pautas centrais do cinema, dentro e fora das telas, Agnès segue eterna, como um farol para iluminar novas estratégias de afirmação das potências femininas. Cada parágrafo de "Viva Varda!" revolve tal discussão.

Varda saiu de cena há seis anos, após uma batalha contra um câncer no seio. Morreu um mês depois de lançar "Varda por Agnès" (2019) numa cerimônia onde conquistou o troféu honorário Berlinale Camera pelo conjunto de sua obra. Esse canto de cisne dela pode ser visto no Estação Botafogo no dia 13, às 16h30.

Divulgação - 'Cléo das 5 às 7' (1962) abre a retrospectiva no dia 7

"Parecia uma maluquice uma garota que nem tinha visto tantos filmes assim se propor a abrir um debate estético numa França onde as vozes masculinas eram preponderantes nos sets, só que eu tinha a ingenuidade e a bravura para fazê-lo", disse Agnès na Berlinale, num discurso reproduzido em "Viva Varda!", que pode ser encomendado via Amazon.

A artista visual morreu aos 90 anos, lutando de modo sereno contra seu tumor, sem abrir mão do trabalho. Pioneira da modernização política e narrativa da produção cinematográfica, a diretora de "As duas Faces da Felicidade" (Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim de 1965) e "Os Renegados" (Leão de Ouro em Veneza, em 1985) nasceu Arlette Varda, mas mudou legalmente seu nome aos 18 anos. Ela tinha em seu currículo um Oscar honorário e uma Palma de Ouro de Honra ao Mérito. Ganhou notoriedade numa época revolucionária à qual fez jus.