Para o alto e avante

Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro elege 'Superman' para rol de 10 melhores filmes do ano, repaginando a relevância de James Gunn, em meio à renovação do herói

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Kal-El protege a Terra das maquinações de Lex Luthor em longa que a ACCRJ colocou em seu pódio de dez mais de 2025

Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro elege 'Superman' para rol de 10 melhores filmes do ano, repaginando a relevância de James Gunn, em meio à renovação do herói

Ao votar os melhores filmes de 2025, no sábado passado, a Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ), uma das mais antigas entidades do jornalismo cultural brasileiro, ativa desde 1984, cravou "O Agente Secreto" em primeiro lugar, mas cometeu uma "ousadia" nerd e pôs o "Superman", de James Gunn em seu panteão. No passado, produções como "Logan", de James Mangold (de 2017) e o "Batman", de Matt Reeves, de 2022, passaram pelo crivo da entidade. Porém, a escolha de 2025 é um pleito em prol de Gunn, por seu reconhecimento como diretor autor. Ao mesmo tempo, essa escolha coincide com a reinvenção do Homem de Aço nas HQs.

Quem estiver atrás de um presente para fãs de quadrinhos, neste Natal, pode surfar na decisão de Panini Comics de encadernar "As Quatro Estações", de Jeff Loeb e Tim Sale, numa edição de bolso, a R$ 56,90, com o Último Filho de Krypton a repensar seu lugar na Terra. A editora ainda lançou, nesta época natalina, o obrigatório "Fantasmas", no qual o cruzado de Metrópolis tem que se confrontar com horrores egressos de uma zona espectral onde terroristas com poderes sobre-humanos estão detidos. Todo esse material mexe com a imaginação de Gunn, que terá o alienígena Brainiac como o inimigo do próximo longa com Clark Kent, "Man of Tomorrow". Tudo indica que o alemão Lars Eirdinger ("A Luz") vá interpretar o vilão. Esse projeto está já em desenvolvimento para 2027. Antes, Gunn supervisiona "Supergirl", de Craig Gillespie, com Milly Alock no papel principal, a prima de Kent, Kara Zor-El. A Panini lançou faz pouco um álbum de luxo da heroína, com arte da brasileira Bilquis Evely.

Essa agitação de Gunn esbarra com uma nova leva de revistinhas ilustradas, paralelas à dramaturgia mensal dos vigilantes da DC, chamada "Absolute", que redesenha a mitologia fundadora de seus best-sellers, como a Mulher-Maravilha, o Batman e o Superman. São tramas que se afinam com as pautas da contemporaneidade, em busca de uma nova geração leitora.

Sob essa recauchutagem do mais popular dos super-heróis, a seleção da ACCRJ, ao acenar para a força criativa de Gunn, demonstra um olhar atento para as revoluções contraculturais da atualidade. Neste momento em que filmes com base em narrativas gráficas fracassam em circuito, celebrar Gunn é um gesto de coragem.

"O que usei em 'Superman' foi a reflexão sobre como um sujeito que é quase um deus se relaciona consigo mesmo em sua busca pela verdade", disse Gunn em papo mediado pela jornalista Renata Boldrini, no qual a palavra "vulnerabilidade" vinha à tona várias vezes.

Ex-colaborador da fábrica de filmes e séries B Troma, o cineasta nascido em St. Louis, no Missouri, há 59 anos é quem escreve e dirige "Superman", um poema que resgata os poderes analgésicos (e revolucionários) da fantasia. Ao assumir o posto, ele passou a carregar a responsabilidade de preservar o prazo de validade das narrativas audiovisuais estreladas por super-heróis no momento em que o filão se encontra em estado de alerta, contabilizando fracassos e rejeições. Sua iniciativa, hoje encontrável na HBO MAX, faturou bonito: custou US$ e arrecadou US$ 225 milhões, rendendo US$ 616 milhões.

Kal-El, o último nobre reminiscente da aristocracia que regia o planeta Krypton, é o caminho que o realizador e produtor encontrou para rebobinar o cinema da DC Comics. De suas graphic novels, minisséries e revistas mensais, Hollywood extraiu cults como a "Trilogia Batman", de Christopher Nolan; "Coringa", ganhador do Leão de Ouro do Festival de Veneza de 2019; e "Constantine" (2005), com Keanu Reeves em luta com o Arcanjo Gabriel. O longa do Homem-Morcego com Michael Keaton, dirigido por Tim Burton em 1989, e sua sequência ("Batman, O Retorno", de 1992), também merecem loas. Nada, contudo, chega a uma distância mínima de voo do Super-Homem com Christopher Reeve (1952-2004) lá de 1978 - que se perpetuou no imaginário cinéfilo. Nada até os latidos de Krypto.

David Corenswet, que mantém a linhagem kryptoniana viva (e adulta), na produção de US$ 225 milhões de Gunn, na qual assume o papel de Kal-El (e de seu alter ego, o repórter Clark Kent), é maroto o bastante para não copiar o jeitão apolíneo de Reeve. Aliás, a versão de Gunn é sobre o oposto de Apolo: seu Superman quebra o braço, sangra, toma tapa na cara, lida mal com os impasses do relacionamento (carnal) com Lois Lane (Rachel Brosnahan) e paga um preço por uma tomada de posição política ao intervir numa espécie de Faixa de Gaza fictícia. Fora isso, há um cachorro... que voa... que tem super mordida... e não sossega o rabinho, o já citado Krypto, baseado na mascote surgida no n° 210 do almanaque "Adventure Comics", em março de 1955, e inspirado no pet de estimação de Gunn.

Tem Superamigos também, não aqueles que a gente via no desenho homônimo das manhãs da Globo nos aos 1980, com os Super-Gêmeos Zan e Jayna, o Chefe Apache e o Samurai, mas uma trupe porreta, formada pela guerreira alada Mulher-Gavião (Isabela Merced), o inventor ricaço Sr. Incrível (Ed Gathegi) e o Lanterna Verde doidão Guy Gardner (Nathan Fillion). Essa é a turma que vai ajudar o personagem a lidar com um Lex Luthor que goteja xenofobia vivido em estado de graça por Nicholas Hoult.

Com tanto elemento bom a seu favor, Gunn pode dar seu recado de cabeça erguida, apoiado no prestígio que consolidou dirigindo os três volumes da franquia "Guardiões da Galáxia" (de 2014 a 2023) para a Marvel. O caminho que seguiu é distinto do épico com Reeve. Parece (até na confecção da direção de arte e no colorido de sua fotografia) com as artes gráficas, o que o aproxima de um almanacão de férias, tipo o extinto "SuperPowers", da editora Abril.

O filme dos anos 1970 era quase fabular. Coroado com uma bilheteria de US$ 300 milhões, "Superman, O Filme", em 78, driblava a linha realista que vinha ditando as regras das cartilhas hollywoodianas desde a década de 1960. O escritor Mario Gianluigi Puzo (1920-1999), autor do romance "O Poderoso Chefão", trabalhou no roteiro dessa famosa transposição do guardião de Metrópolis para as telas. De março de 1977 a novembro de 1978, o cineasta Richard Donner Schwartzberg (1930-2021) torrou um orçamento de US$ 55 milhões para filmar e finalizar uma adaptação cinematográfica das HQs de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992). Antes dele, Guy Hamilton e Steven Spielberg foram cotados para assumir a direção. Egresso do sucesso de "A Profecia" (1976), Donner rodou "Superman — O Filme" em locações em Nova York, no Arizona, em São Francisco e no Novo México, além de Alberta no Canadá. Usou ainda os estúdios Pinewood e Shepperton, na Inglaterra, para filmar algumas cenas do longa-metragem.

James Caan, Burt Reynolds, Kris Kristofferson e Nick Nolte foram cotados para viver Kal-El, sobrevivente de Krypton que reside na Terra sob a identidade de Clark Kent, um repórter. Após uma série de testes, o papel acabou com Reeve, cuja atuação (irretocável) só é ofuscada pela de Gene Hackman (1930-2025) como criminoso Lex Luthor. Na dublagem original, gravada pela Herbert Richers, André Filho emprestava a voz a Reeve. Darcy Pedrosa dublou Hackman.

Seu bom-mocismo, ainda estacionado em ditames morais dos anos 1930, e sua indestrutibilidade não mais encontram ressonância em um público hoje acostumado à malícia do Homem de Ferro de Robert Downey Jr. ou ao instinto assassino do Wolverine. Nos EUA, seus quadrinhos caem nas vendas ano a ano. Vendem bem só quando um coadjuvante de luxo (em geral, o Batman) divide quadrinhos com ele, ou quando um quadrinista transgressor repagina seu perfil, como John Byrne na década de 1980 ou como Grant Morrison em "All-Star Superman", de 2006. Não por acaso, Gunn abre espaço para ser incorreto, não descarta mortes e torce paradigmas éticos da DC, sabendo valorizar cada coadjuvante com o máximo de requinte, a se destacar o Jimmy Olsen interpretado por Skyler Gisondo.

Com toques pontuais de humor e muita adrenalina, Gunn encarou com coragem a segunda kryptonita na bota do herói, que é a maldição que cerca os intérpretes de Kal-El/Clark Kent, a começar pelo mais icônico deles, o já citado Reeve. Nenhum ator teve sua imagem tão atrelada à figura apolínea criada em 1938 por Jerome Jerry Siegel (1914-1996) e Joseph "Joe" Shuster (1914-1992) quanto ele. A assombração em seu caso foi uma via de mão dupla. Confinado a uma cadeira de rodas após uma lesão cervical em 1995, Reeve jamais estrelou um longa de tanta popularidade e rentabilidade quanto o cult de Donner.

Antes, os atores Kirk Alyn (1910-1999) e George Reeves (1914-1959), que encarnaram o Super-Homem em séries dos anos 1940 e 50, também foram amaldiçoados: o primeiro perdeu a fama e isolou-se; o segundo foi encontrado baleado. Dean Cain, do seriado "Lois & Clark" (1993), também viu seu prestígio popular sumir. Em 2006, "Superman — O retorno" (2006) tentou fazer de Brandon Routh uma celebridade, mas ele caiu no ostracismo.

Henry Cavill, que interpretou o guardião de Metrópolis em "Homem de Aço" (2013), teve melhor sorte e alcançou firmes holofotes. Apesar disso, a nova versão do vigilante deixou-o de lado. David Corenswet assumiu a insígnia do S (que significa "esperança") com garbo, trazendo algo vulnerável, e demasiadamente gente como a gente. Reeve teria orgulho. A ACCRJ aplaudiu o que viu, numa temporada na qual consagrou, além de "O Agente Secreto", outra iguaria brasileira: "O Último Azul". Esse river movie foi rodado na Amazônia pelo pernambucano Gabriel Mascaro, com foco na luta de uma septuagenária (Denise Weinberg) para fugir de um campo de concentração geriátrico. Coube a esse longa o Grande Prêmio do Júri da Berlinale, em fevereiro. O panteão da ACCRJ destacou ainda o ganhador do Oscar de Melhor Filme e Direção deste ano, "Anora", que venceu a Palma de Ouro de Cannes de 2024. Seu leque de escolhidos reúne ainda produções pop de gêneros como terror de tons políticos ("A Hora do Mal" e "Pecadores").