Resistência cultural amazônica no embalo do carimbó

Grupo paraense lança o álbum 'Meu Bem de Belém' e reafirma as raízes do ritmo em ponte entre tradição e modernidade

Por Affonso Nunes

Formado por artistas paraenses radicados em Paraty, o Mundiá Carimbó lança o primeiro álbum

Grupo paraense lança o álbum 'Meu Bem de Belém' e reafirma as raízes do ritmo em ponte entre tradição e modernidade

A década de existência da banda Mundiá Carimbó, completa em 2026 ganha registro fonográfico e cênico com o lançamento de "Meu bem de Belém", álbum já disponível nas plataformas digitais que também dá nome ao espetáculo musical do grupo. Criado por paraenses radicados na cidade histórica de Paraty (RJ), o coletivo apresenta um repertório autoral que bebe nas fontes das clássicas canções populares dos antigos mestres do carimbó e outros ritmos amazônicos como o retumbão, o xote bragantino e o lundu marajoara.

Manoel Cordeiro, multi-instrumentista e compositor nascido em Ponta de Pedras, no Marajó - considerado um dos mestres da guitarrada e da música amazônica com cinquenta anos de carreira e participação em cerca de mil discos - chancela o trabalho do grupo assinando a produção musical do álbum. O trabalho parte do carimbó raiz e da guitarrada instrumental para estabelecer diálogos com ritmos afro-caribenhos como zouk, cumbia e bolero, configurando uma legítima expressão da música popular brasileira com referência amazônica.

Manifestação cultural de origem afro-indígena reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2014, o carimbó tem suas raízes fincadas no Pará desde o século 17, a partir de danças e costumes indígenas. O nome deriva do tupi "korimbó", junção de "kori" (pau oco) e "m'bó" (furado), referência ao tambor que deu identidade sonora a essa tradição produzida predominantemente por comunidades ribeirinhas paraenses. Combinando elementos das culturas indígena, africana e portuguesa, o carimbó era originalmente uma dança cerimonial associada a rituais de bênçãos e agradecimento aos espíritos da natureza.

Formado por oito artistas, o Mundiá Carimbó traz a formação usual dos grupos musicais de Belém do Pará, com curimbó (tambor indígena), banjo (principal instrumento de corda do carimbó), maracas (chocalho indígena feito com cuia e sementes), guitarra elétrica e saxofone, entre outros instrumentos. Os integrantes se dividem entre Xan Lucato (congas e maracas), Cláudia Ribeiro (voz e triângulo mineiro), Rudrigo Sagar (voz e banjo), Fernando Paraense (curimbó, bongo e maracas), Joana Marinho (voz e maracas), Fernanda Echuya (curimbó, maracas e reco-reco), Javier Seco (sax e clarinete) e João Guaiamumm (voz e guitarra).

Divulgação -

O álbum apresenta composições autorais amadurecidas ao longo da trajetória do grupo, que falam simbolicamente sobre a relação do homem com a encantaria amazônica e suas novas conexões. Entre as músicas figuram "Carimbó Ijexá", "Morena Amar" e "Afro Caribenho", de Fernando Paraense; "Banhar", "Sonhei com Mar" e "Meu Bem de Belém", de Rodrigo Braga; além de "Aconchinhar", parceria entre Rodrigo Braga e Fernando Paraense. "É muito importante celebrar esses mestres em vida, como Manoel Cordeiro, Ronaldo Silva, Alan Carvalho, André Nascimento, todos presentes no álbum", afirma o fundador Rudrigo Braga.

O Mundiá Carimbó foi criado sob o desejo de seus integrantes de revelar ao resto do país uma manifestação cultural restrita à Amazônia. "Existia uma sensação de que o Brasil não conhecia esse seu lado", comenta Rudrigo.