'Valor Sentimental' para agitar o Natal

Tratado como potencial concorrente ao Oscar, drama norueguês ganhador do Grande Prêmio de Cannes encontrará espaço em circuito no dia 25, mas tem pré-estreia no Rio no sábado

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'Sentimental Value', do norueguês Joachim Trier: um rolo compressor em premiações internacionais

 

Tratado como potencial concorrente ao Oscar, drama norueguês ganhador do Grande Prêmio de Cannes encontrará espaço em circuito no dia 25, mas tem pré-estreia no Rio no sábado

Não é só "O Agente Secreto" que precisa ficar atento à ofensiva norueguesa chamada "Valor Sentimental" ("Affeksjonsverdi"), mas também todos os concorrentes de peso (incluindo "Uma Batalha Após A Outra" e "Pecadores") desta temporada de premiações que levam ao Oscar, no dia 15 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles. Hollywood em peso já sacou a força do drama dirigido por Joachim Trier ("Mais Forte Que Bombas"), nas mais variadas categorias. Suas oito indicações ao Globo de Ouro são um atestado de prestígio. É hora de a cinefilia brasileira sacar também o potencial dessa produção de US$ 7,8 milhões, rodada em Oslo, com tomadas em Deauville, na França.

Tratado como potencial concorrente ao Oscar, drama norueguês ganhador do Grande Prêmio de Cannes encontrará espaço em circuito no dia 25, mas tem pré-estreia neste sábado no Rio. Como é alta a expectativa por essa trama de lavação de roupa em família - com toques de bastidor da vida teatral e do mercado cinematográfico autoral -, sua estreia vai ocorrer no Natal, em pleno dia 25. Como um esquenta para o lançamento, que tem a MUBI no rol de seus agentes distribuidores, neste sábado haverá uma bateria de pré-estreias do longa por várias salas de exibição da cidade.

Em cada uma delas, vai se ouvir um berreiro. E aplauso. Passados 25 minutos da primeira projeção mundial de "Sentimental Value" (seu título mundial de trabalho), no último Festival de Cannes, a imprensa presente na sessão do filme entreolhou-se e compartilhou... baixinho..., em plena cumplicidade, um comentário: "Vem Oscar daí". Concorrente à Palma de Ouro, o novo exercício autoral de Trier, realizador de "A Pior Pessoa Do Mundo" (2021), saiu da Croisette com o Grande Prêmio do Júri e seguiu sendo aclamado em telas de Locarno e de San Sebastián. No Festival do Rio, ele foi uma coqueluche também.

Joachim retoma a parceria com a (monumental) atriz Renate Reinsve nesse devastador relato sobre acerto de contas entre filha, pai, teatro e cinema. Seu cacife só faz subir nas apostas para as estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Divulgação - Joaquim Trier: 'Escolho filmes que discutam a dramaturgia da falta do diálogo, hoje tão presente'

"Meu pai fazia som no cinema e eu construí essa história buscando meios de domar os hiatos que o silêncio produz, sem o interesse de preenche-los, mas, sim, de contorna-los", respondeu Joachim ao Correio da Manhã em Cannes.

Em fevereiro, a Noruega, país que ele representa, conquistou o Urso de Ouro da Berlinale com "Dreams (Sex Love)", já lançado no Rio, e também atento a faíscas em família. Dilemas maternos e (sobretudo) paternos explodem em "Valor Sentimental". Seu roteiro aborda o ônus nas conexões de sangue a partir da simbiose entre as irmãs Nora e Agnes, vividas por Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, ambas indicadas ao Globo de Ouro. Elas reencontram seu pai distante, o carismático cineasta Gustav Borg, encarnado num Stellan Skarsgård em estado de graça. Ele foi muso de outro Trier... o dinamarquês Lars von Trier, com quem filmou cults como "Ondas do Destino" (1996) e "Ninfomaníaca" (2023).

Na trama de "Valor Sentimental", Nora e Agnes perderam, faz tempo, o convívio com Gustav. Depois que a mãe delas suicidou-se, ele foi se afastando gradualmente, para se dedicar a uma carreira, consagrada, como documentarista. No momento em que Nora vive o apogeu de sua trajetória como atriz nos palcos escandinavos, ele volta e oferece a ela um papel central num projeto que marca seu retorno à ficção. Quando Nora recusa, ela logo descobre que ele deu seu papel a uma jovem estrela de Hollywood, Rachel (Elle Fanning), que almeja ser mais do que uma jovem diva hollywoodiana. Com a chegada da moça, as duas irmãs precisam lidar com as mágoas de outrora e exorcizar fantasmas.

"Escolho filmes que discutam a dramaturgia da falta do diálogo, hoje tão presente na sociedade", disse Renate ao Correio da Manhã.

O favoritismo de Trier é maior na categoria de Roteiro, sendo que Stellan é visto como "O" oscarizado entre os coadjuvantes masculinos desta safra.