Um 'Close Up!' na inclusão

Uma das vozes mais impactantes da luta contra o racismo na arte, Sabrina Fidalgo roda com José Marçal de Jesus um experimento anfíbio de ficção e videoarte sobre história do cinema

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A realizadora Sabrina Fidalgo no set de 'Close Up' (abaixo), uma experiência narrativa num histórico de lutas decoloniais

Uma das vozes mais impactantes da luta contra o racismo na arte, Sabrina Fidalgo roda com José Marçal de Jesus um experimento anfíbio de ficção e videoarte sobre história do cinema

Em expectativa pela carreira de seu recém-finalizado documentário "O Projeto", feito em dupla com o fotógrafo suíço Yvan Rodic (o FaceHunter), Sabrina Fidalgo usa o tempo de espera para criar (leia-se "filmar"), em fricção com o Itaú Cultural. Ela acaba de rodar um experimento meio videoarte, meio filme de ficção chamado "Close Up!", fábula inteiramente filmada nos estúdios da própria instituição. A realização é dividida entre a diretora (consagrada por "Alfazema" e "Rainha") e José Marçal de Jesus, fotógrafo de arte e artista visual radicado em Berlim. O projeto vai se desdobrar numa instalação em vídeo.

A narrativa propõe uma (re)invenção das mais radicais da história do cinema, revisitando desde as produções do cinema mudo, entre 1900 e 1930, passando pelo filme noir dos anos 1940, até o auge da Era de Ouro de Hollywood nos anos 1950. A proposta é recriar representações e revisitar estrelas negras... ícones de um cinema que jamais existiu neste mundo de intolerâncias. O elenco conta com o talento de Bruna Brito e marca o retorno do enfant terrible paulistano André Luís Patrício, ator icônico do teatro, egresso do CPT de Antunes Filho.

"Eu me considero uma esteta no sentido de que me interessa muito a linguagem, a beleza. E quando falo de beleza é num sentido muito subjetivo mesmo, mas entendo que beleza tem a ver com um estado de coisas que está intrinsicamente ligado a um sentido de harmonia", diz Sabrina ao Correio da Manhã. "É necessário estudo para entender as várias belezas que tem por aí. Enfim, nesse sentido acho que 'Close Up!' dialoga com a minha busca por uma certa linguagem e narrativa que podem ser vistas nos meus filmes anteriores. É um filme feito de várias sequências e que pode dialogar com o formato mais livre das artes visuais. Essas sequências que filmamos podem ser multifacetadas em diferentes dispositivos num espaço expositivo. Podemos usar nossos cenários como obras de arte".

Divulgação - 'Close Up' é a nova experiência narrativa de Sabrina Fidalgo num histórico de lutas decoloniais

Sabrina e Marçal são amigos de adolescência. "Lá se vão 30 anos de amizade…e a gente já sabia o queria ser nessa época. Já éramos dois adolescentes pretos e estetas no Rio de Janeiro. Ele é um grande artista da fotografia e trocamos muito. Acho que o olhar poético e fashionista dele dialoga com a minha linguagem cinematográfica que reverência um certo cinema que não incluiu pessoas como nós. Acho que esse é o grande ponto que nos une nesse projeto", explica.

Conhecida por sua militância no combate ao racismo, em filmes e texto (que já, já hão de virar livro), Sabrina quis fazer cinema inspirada por "O Mágico de Oz" (1939). Lembra da fantasia dirigida por Victor Fleming, com Judy Garland, como um clássico das noites de Natal na sessão Coruja da Rede Globo nos anos 1980 e 1990.

"Tive contato com o filme pela primeira vez aos 6 anos de idade e tudo mudou para mim no momento em que assisti esse filme. Soube ali, naquele momento, que queria fazer cinema. Acho que todos os filmes da Era de Ouro de Hollywood me fizeram ver a questão da intolerância racial, porque eu nunca me vi representada neles. Mas um em especifico me fez pensar nisso com mais afinco: 'Imitação da Vida', de 1959, em que a filha de pele clara renega a mãe negra e tenta se passar por branca na sociedade. Era ainda criança quando assisti pela primeira vez", conta a realizadora, que passou uma temporada na Alemanha, na juventude, e passeou com seus filmes por festivais icônicos, como o de Roterdã, na Holanda.

A inquietação que "Imitação da Vida" causou em Sabrina se faz notar no avassalador jorro de representações da exclusão... seguidas por estratégicas de inclusão... que ela e Yvan Rodic levaram para "O Projeto". É uma investigação sobre aceitação e sobre gestos racistas (dos mais institucionalizados) feita numa excursão por diferentes partes do mundo.

"Meu longa documental foi finalizado há pouco tempo e agora é esperar para sabermos em qual festival iremos estrear", diz a cineasta. "Muita ansiedade para soltar esse novo trabalho no mundo".

Seu projeto de longa seguinte será uma ficção e se chama "Karnaval".