O amor contra-ataca nas telonas

Estreia avassaladora do novo 'Avatar' tem pela frente uma esquadra latino-americana de filmes que celebram a paixão e o benquerer familiar

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Naura Schneider em cena de 'Meus 4 Maridos'

James Cameron é grande (1 metro e 88 centímetros de altura), já bateu o bilhão algumas vezes (a começar com "Titanic"), já exterminou o futuro com Arnold Schwarzenegger, mas... o diretor canadense por trás de "Avatar" não é latino-americano. Por mais que estude nossa ecologia e lute pele preservação de nossas matas, ele não manja nossas manhas... sobretudo no que diz respeito ao verbo amar. Nesta quinta-feira, a terceira parte de seu épico ecológico estelar com um povo azulado da Lua de Pandora, "Fogo e Cinzas", chega chegando ao circuito, com fome de bilheterias gigantes, para tomar os multiplexes todos para si. Só não contava com a projeção de uma série de produções vindas de cantos distintos da Pangeia de colonização ibérica para deter sua hegemonia. O Brasil faz seu papel nessa peleja para assegurar nossa presença em tela com "Meus 4 Maridos", comédia rodada em 15 dias numa casa da Barra, com a atriz e produtora Naura Schneider em estado de graça.

Vista em novelas como "Despedida de Solteiro" (1992) e "Senhora do Destino" (2004), Naura é conhecida na telona por longas-metragens que denunciavam a violência contra as mulheres: "Dias e Noites", lançado no Festival de Gramado de 2008, com foco nas múltiplas brutalidades do machismo, e "Vidas Partidas", que levou a história da Lei Maria da Penha ao circuito, em 2016. Agora, em "Meus 4 Maridos", sob a direção de Fred Mayrink, ela pede licença aos temas ásperos - porém necessários e urgentes - para contar a história de uma jornalista, Joana, que chega aos 50 anos e se dá conta que gostaria muito de ter vivido uma vida toda casada.

Seu desejo era fazer 25 anos de casada como sua mãe, amigas, tias. Percebe que, juntando as durações de seus quatro casamentos, ela passou, sim, 25 anos casada. Nada mais justo, então, do que comemorar suas Bodas de Prata. Para isso, Joana convida seus ex-maridos para um jantar, sem explicar o motivo do encontro e nem revelar quem eram os convidados da ocasião. Os ânimos ficam tensos a cada toque da campainha e a chegada de um queridinho de outrora.

Há uma semana, "Sexa" mostrou que Gloria Pires é a maior diversão não apenas atuando, mas, também, comandando sets no posto de cineasta. Seu filme de estreia como cineasta é um doce deleite narrando as angústias de uma revisora de livros que se apaixona por um rapaz bem mais moço, um analista de TI vivido por Thiago Martins.

Helena Barreto/Divulgação - Gloria Pires vive Bárbara, uma sexagenária que quer ter o direito de amar em 'Sexa'

Um reforço hermano feito na ponte afetiva entre Argentina e Uruguai, com dois intérpretes geniais (Paulina García e Cesar Troncoso) fortalece a presença latina nas salas de projeção: "Milonga". Laura González (de "Despierta") assina a direção desta produção que reúne a diva chilena e o ator de "O Banheiro do Papa" (2007). Em sua trama, a sofrida Rosa tem a chance de se libertar de um passado opressivo ao conhecer um homem, Juan, com quem redescobre sua paixão pelo tango. Mas antes de seguir em frente, precisa aceitar verdades incômodas.

Divulgação - O genial ator uruguaio Cesar Troncoso fita a solidão em 'Milonga'

Espera-se ainda para este fim de ano em nossas terras a chegada do longa vencedor do Prix Un Certain Regard do último Festival de Cannes: o contagiante drama de CEP chileno "O Olhar Misterioso do Flamingo" ("La Misteriosa Mirada Del Flamenco"), de Diego Céspedes. O Festival do Rio, em outubro, acolheu Céspedes e o ator Matias Catalán, estrela n.1 dessa produção, que foi um acontecimento na Croisette em maio e vai representar seu país no Oscar. Filas gigantes se formaram nas projeções dessa reconstituição histórica da vida no norte do Chile no início dos anos 1980, numa área de mineração na qual um cabaré de mulheres trans e travestis enfrenta o boom da Aids sob a fúria da população masculina de trabalhadores.

"Como a organização da sociedade é desconectada dos afetos e dos desejos, a raiz de todo conflito de gênero é o medo e dele nasce o ódio", disse Céspedes num encontro com o Correio da Manhã no Armazém da Utopia, a sede do Festival, no Cais do Porto.

"Todo confronto no nosso filme se resolve pelo amor, inclusive o materno, no momento em que Flamingo assume um papel protetor, de mãe", complementava Matias, ao lado do diretor.

Tudo no longa-metragem deles é visto pelos olhos de uma menina, Lidia (Tamara Cortes), tratada como filha pela performer Flamingo (papel de Matías), alvo de transfobia. Na trama, o contágio do HIV é tratado com misticismo, numa crença de que a "peste" se espalha pela troca de olhares.

"A menção explícita que o filme faz aos anos 1980 é curta e rápida, pois conversei com a equipe, na fotografia e na direção de arte, para que o tempo não ficasse tão marcado, a fim de mostrar que a violência contra trans hoje cresce tanto como na época em que o enredo se passa, sobretudo na América Latina", disse Céspedes, que vê "O Olhar Misterioso do Flamingo" se tornar um ímã de plateias por onde passa. "Não sei se somos representativos da imagem padrão do cinema chileno, pois nos vinculamos com uma linhagem que traz novos rostos vindos de classes sociais mais pobres, como eu. É um Chile mais cotidiano".

É bom "Avatar: Fogo e Cinzas" se dar conta de que vai ter trabalho.