De braços abertos à delicadeza: 'Pequenas Criaturas' é o vencedor do Festival do Rio 2025

Recriação da vida em Brasília em 1986 é um painel de afetos

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Pequenas Criaturas

Recriação da vida em Brasília em 1986 é um painel de afetos

 

Delicada cartografia de desamparos na Brasília dos tempos da redemocratização, “Pequenas Criaturas”, de Anne Pinheiro Guimarães, foi o Melhor Filme de Ficção, do Festival do Rio 2025, encerrado no domingo no Odeon. É um painel de afetos no DF de 1986, a partir da luta de Helena (Carolina Dieckmann) para manter seus filhos unidos num contexto de solidão atroz. A cerimônia foi conduzida por Luísa Arraes e Clayton Nascimento, numa toada de alto astral, assegurando a vitória de “Apolo”, de Tainá Müller e Isis Broken, na seara documental. Esse relato sobre o nascimento de um bebê fruto do amor de um casal trans fala de legitimidade de afetos num país assolado por agressão obstétrica e preconceitos variados. O longa ainda recebeu o troféu de Melhor Trilha Sonora, dado ao compositor Plínio Profeta.

Os resultados foram deliberados por um júri presidido pelo distribuidor e produtor Eric Lagesse. O time julgador incluiu a roteirista Carolina Kotscho; a figurinista Claudia Kopke; a produtora executiva Elena Manrique; o curador Javier Garcia Puerto; a diretora Luciana Bezerra e a consultora de projetos audiovisuais e também produtora Paula Astorga. A primeira escolha deles a ser anunciada ao Odeon foi a láurea de Melhor Curta, confiada a duas produções: “O Faz-Tudo”, de Fábio Leal, e “Sebastiana”, de Pedro de Alencar.

Lagesse & cia. optaram por um .doc, “Cheiro de Diesel”, por Natasha Neri e Gizele Martins, sobre violência militares, para receber o Prêmio Especial do Júri. É uma aula de Sociologia em tons poéticos com foco na brutalidade das instâncias de farda nas comunidades do RJ. Coube a ele ainda o prêmio de júri popular de concorrentes documentais.

Essa turma confiou ao animador Rogério Nunes o Redentor de melhor direção por “Coração das Trevas”, que evoca “Apocalypse Now” nas periferias de um RJ futurista. Já o Redentor para a realização de documentários foi para Mini Kerti por “Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui”.

Nas searas de atuações inspiradas, teve um Redentor para Klara Castanho, por “#SalveRosa”, que ganhou ainda o troféu de júri popular e o prêmio de melhor figurino com foco numa celebridade adolescente da web que se descobre manipulada. A láurea de Melhor Ator foi para Gabriel Faryas por “Ato Noturno”. Esse foi o limpa-trilho da noite, com vitórias de Melhor Roteiro e Melhor Fotografia. Coube a ele ainda a láurea de simbolismo Queer, o troféu Félix. Essa estatueta foi atribuída ainda à animação australiana “A Sapatona Galáctica”, de Leela Varghese e Emma Hough Hobb. Esse dois títulos estrearam na Berlinale e repetiram no Rio o alto teor de mobilização pop, no debate contra o moralismo, que expressaram em solo alemão, em fevereiro.

Na escolha das melhores interpretações coadjuvantes, venceram Diva Menner e Alejandro Claveaux, ambos favoritos absolutod dessa categoria por seus desempenhos estonteantes em “Ruas da Glória”, de Felipe Sholl. É um painel da busca pelo prazer.

Atribuído por um júri presidido pela produtora e documentarista Beth Formaggini, o troféu Novos Rumos, que contempla um coletivo paralelo de curtas e de longas, foi dado a “Uma Em Mil”, de Jonatas Rubert e Tiago Rubert Atala. Sua narrativa vem de uma fala lugar comum: é normal dizerem que “uma em mil" são as chances de uma pessoa nascer com Down. Este filme é dirigido por dois irmãos, e o mais jovem tem a síndrome. Juntos, eles tentam entender a realidade que os cercam.

Terminado o Festival do Rio, as atenções do planisfério cinéfilo se voltam para a 49. Mostra de São Paulo, que abre as telas paulistanas a partir desta quarta-feira, com a projeção de “Sirât”, do galego Oliver Laxe.


A premiação

Filme: “Pequenas Criaturas”, de Anne Pinheiro Guimarães

Documentário: “Apolo”, de Tainá Müller e Isis Broken

Curta: empate de “O Faz-Tudo”, de Fábio Leal, com “Sebastiana”, de Pedro de Alencar

Prêmio Especial do Júri: “Cheiro de Diesel”, por Natasha Neri e Gizele Martins

Direção: Rogério Nunes (por “Coração das Trevas”)

Direção de documentários: Mini Kerti (por “Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui”)


Atriz: Klara Castanho (por “#SalveRosa”)

Ator: Gabriel Faryas (por “Ato Noturno”)

Atriz Coadjuvante: Diva Menner (por “Ruas da Glória”)

Ator Coadjuvante: Alejandro Claveaux (por “Ruas da Glória”)

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (por “Ato Noturno”)

Fotografia: Luciana Baseggio (por “Ato Noturno”)

Montagem: André Finotti (por “Honestino”)

Som: Ariel Henrique e Tales Manfrinato (por “Love Kills”)

Trilha Sonora Original: Plínio Profeta (por “Apolo”)

Figurino: Renata Russo (por “#SalveRosa”)

Direção de Arte: Claudia Andrade (por “Pequenas Criaturas”)

Melhor Filme Pelo Júri Popular: “#SalveRosa” (ficção) e “Cheiro de Diesel” (documentário)

Novos Rumos: “Uma Em Mil”, de Jonatas Rubert e Tiago Rubert Atala