CRÍTICA / FILME / ANINAIS PERIGOSOS: A mandíbula que abocanhou Cannes
O mar pode não estar para peixe no oceano dos filmes de super-herói, hoje esnobados até por seu público quadrinhófilo outrora fiel, mas, na praia do terror, a pesca de blockbuster anda abundante, a julgar por sucessos recentes como "Pecadores", "A Hora do Mal" e "Invocação do Mal 4: O Último Ritual". Como nem só de assombrações do Além vive essa seara horrífica, com espaço histórico para monstros do mundo real, longas-metragens sobre bichos escrotos que saem das correntezas têm sempre passagem - e plateia.
Não é qualquer um, contudo, que tem a chance de desaguar no maior festival de cinema do mundo... o de Cannes... e ainda sair lá da Croisette para se estabelecer como um lucrativo veio de venda de ingressos. Pois "Animais Perigosos" ("Dangerous Animals"), da Austrália, teve essa sorte. A produção australiana de US$ 2 milhões inscreveu-se na Quinzena de Cineastas de Cannes e acabou por ser lançado lá. Ao se despedir do balneário francês, correu circuitos, faturando quase quatro vezes o quanto custou. A carismática besta em forma de gente encarnado por Jai Courtney (dublado aqui por Nestor Chiesse) é parte do segredo de seu êxito.
Citados numerosas vezes no thriller pernambucano "O Agente Secreto", por meio de evocações a "Tubarão" (1975), de Steven Spielberg, esse survival horror, nas raias do filme B, espanta por sua criativida. Não é sempre que se vê um Norman Bates (feroz) como Tucker, personagem de Courtney. Quando o ator entra em cena, não se teme mais as feras de guelras e de barbatana, mas, sim, suas maquinações de serial killer. A mais selvagem de suas traquinagens é torturar as suas vítimas a oferece-las como petisco para as presas dos peixes carnívoros que Hollywood.
Egresso da Tasmânia, o diretor Sean Byrne comanda o set com vigor, ao aplicar nas cartilhas dos shark movies reviravoltas inexatas, mas exigidas pelos fãs, com direito a sequências em que os tubarões desafiam as leis da gravidade. O diferencial artístico aqui reside na luz estruturada pela diretora de fotografia Shelley Farthing-Dawe, a partir do colorido natural à sua volta. As suas imagens noturnas são o ápice do esmero plástico do seu trabalho, por ampliar a sensação de isolamento do barco onde a maior parte do enredo se desenrola.
