Rugidos escandinavos para o Oscar

Em paralelo à disputa pelo Leopardo de Ouro, Festival de Locarno abre sua Piazza Grande para 'Sentimental Value', ímã de Oscars laureado com o Grande Prêmio do Júri em Cannes

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Locarno acolhe 'Sentimental Value', do norueguês Joachim Trier, de olho no Oscar de Filme Estrangeiro

Passados 25 minutos da primeira projeção mundial de "Sentimental Value" ("Affeksjonsverdi"), no último Festival de Cannes, a imprensa presente na sessão do drama norueguês de Joachim Trier entreolhou-se e compartilhou... baixinho... na cumplicidade, um comentário: "Vem Oscar daí". Concorrente à Palma de Ouro, o novo exercício autoral do realizador de "A Pior Pessoa Do Mundo" (2021), do qual importou a (monumental) atriz Renate Reinsve, saiu da Croisette com o Grande Prêmio do Júri.

Neste sábado, esse devastador relato sobre acerto de contas entre filha, pai, teatro e cinema caminha para uma vitrine que promete ampliar seu prestígio e fazer subir seu cacife nas apostas para estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: o Festival de Locarno, na Suíça. Giona A. Nazzaro, diretor artístico do evento, assegurou espaço nobre para Joachim na Piazza Grande, a praça central da cidade, fora da disputa oficial. Há uma chance, fortíssima, de prêmio de júri popular, pois esse voto depende da vontade do público. Se tem algo que Reinsve sabe fazer é arrebatar plateias.

"Meu pai fazia som no cinema e eu construí essa história buscando meios de domar os hiatos que o silêncio produz, sem o interesse de preenche-los, mas, sim, de contorna-los", respondeu Joachim ao Correio da Manhã em Cannes.

Em fevereiro, a Noruega, país que ele representa, conquistou o Urso de Ouro da Berlinale com "Dreams (Sex Love)", já lançado no Rio, e também atento a faíscas em família. Dilemas maternos e (sobretudo) paternos explodem em "Sentimental Value". Seu roteiro aborda o ônus nas conexões de sangue a partir da simbiose entre as irmãs Nora e Agnes, vividas por Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas. Elas reencontram seu pai distante, o carismático cineasta Gustav Borg (encarnado num Stellan Skarsgård em estado de graça), com quem perderam, faz tempo, o convívio. Depois que a mãe delas suicidou-se, ele foi se afastando gradualmente, para se dedicar a uma carreira, consagrada, como documentarista. No momento em que Nora vive o apogeu de sua trajetória como atriz nos palcos escandinavos, ele volta e oferece a ela um papel central num projeto que marca seu retorno à ficção. Quando Nora recusa, ela logo descobre que ele deu seu papel a uma jovem estrela de Hollywood, Rachel (Elle Fanning), que almeja ser mais do que uma jovem diva hollywoodiana. Com a chegada da moça, as duas irmãs precisam lidar com as mágoas de outrora e exorcizar fantasmas.

"Escolho filmes que discutam a dramaturgia da falta do diálogo, hoje tão presente na sociedade", disse Renate ao Correio da Manhã.

Lá se vão dez anos desde que Joachim encantou o cinemão com "Mais Forte Que Bombas", no qual levou a francesa Isabelle Huppert a falar inglês num enredo sobre desamparo e luto. Esse é o assunto recorrente de sua obra.

Ao largo da consagração de "Sentimental Value", Locarno segue a desbravar as poéticas das 18 produções concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2025, com o auxílio de um júri presidido pelo diretor cambojano Rithy Pahn. O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, de "Ainda Estou Aqui", foi peça fundamental do mais esperado competidor do certame: o romeno "Drácula", de Radu Jude. Impõem respeito ainda, na corrida por prêmios, os longas "Mektoub, My Love: Canto Due", do franco-tunisiano Abdellatif Kechiche; "White Snail", que Elsa Kremser e Levin Peter trazem da Áustria; "As Estações", da portuguesa Maureen Fazendeiro; e "Dry Leaf", do fabulador georgiano Alexandre Koberidze. Na semana passada, a badalada diretora japonesa Naomi Kawase (de "Esplendor") finalizou o esperado "Yakushima's Illusion", com Vicky Krieps, para apresentar no certame suíço. Sua projeção é esperadíssima e foi agendada para o dia 15.

Uma das atrações mais esperadas de Locarno este ano, escalada como sua atração final, no dia 16 de agosto, é a nova versão (agora musical) de "O Beijo da Mulher Aranha", o livro de Manuel Puig (1932-1990), que inspirou um dos maiores êxitos do diretor Hector Babenco (1946-2016), em 1985. Jennifer Lopez encarna o papel que foi de Sonia Braga. O longa, dirigido por Bill Condon, passa no encerramento do festival, e tem Diego Luna e Tonatiuh nos papéis que foram de Raúl Julia (1940-1994) e William Hurt (1950-2022), que ganhou o Oscar pela versão de Babenco, interpretando o decorador Molina.