Golshifteh Farahani, diva de muitas terras... e telas

Ícone político da resiliência feminina, a atriz iraniana rdaicada na França ganha troféu honorário no Festival de Locarno por seu investimento num cinema multicultural

Por Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

Cults como 'Um Divã na Tunísia' (2019) deram a Golshifteh Farahani uma visibilidade singular na seara indie

 

Dirigida pelo badalado realizador francês Arnaud Desplechin em "The Thing That Hurts", a atriz iraniana radicada na França Golshifteh Farahani segue indômita em seu processo de expansão multicultural, com trabalhos nas mais variadas línguas e nos mais distintos territórios, numa fricção profissional a ser contemplada com um troféu honorário no Festival de Locarno. No dia 6, na abertura de sua 78º edição, a maratona cinéfila suíça vai contemplar a estrela nascida em Teerã, há 42 anos, com o Excellence Award Davide Campari. Durante o evento, seu trabalho mais recente - a mistura de body horror e melodrama "Alpha", de Julie Ducournau, indicada à Palma de Ouro em Cannes - vai ganhar projeções abertas ao público.

"Tenho pelo Brasil um misto de curiosidade e de entusiasmo, sobretudo pela forma como vocês têm lidado com um turbilhão político que vem desde o golpe de 2016. Mas eu me baseio pelas reportagens que leio. Minha vivência de Irã é, certamente, bem distinta, mas também há um quinhão histórico de resistência política", disse Golshifteh ao Correio da Manhã, em sua última visita à Berlinale, onde integrou o júri da disputa pelo Urso de Ouro. "Quem vem do Irã sofre com a opressão e a mordaça do silêncio, mas somos um povo acostumado ao combate. Um dos motivos que me mantém trabalhando no universo da arte é a chance de mostrar às mulheres que podemos levar nossa voz pelo mundo, por meio do cinema. Incluo aí mulheres do meu país, oprimidas por uma intolerância milenar. O mundo em que vivemos tem uma coleção de intolerâncias das mais diversas. Tento imprimir leveza nos meus trabalhos de modo a rasgar esse véu de segregação".

Cults como "Paterson" (2016), "Filhas do Sol" (2018) e "Um Divã na Tunísia" (2019) deram a ela uma visibilidade singular na seara indie do audiovisual, nas mais variadas línguas. Foi num filme falado em curdo e persa, "Antes da Lua Cheia" (2006), que ela foi notada pelas câmeras e pela crítica. Três anos depois, protagonizou "Procurando Elly", de Asghar Farhadi (hoje um dos mais aclamados diretores do Irã), consagrando-se com seu vasto ferramental cênico.

"Golshifteh Farahani é uma figura fundamental do cinema contemporâneo", diz Giona A. Nazzaro, curador de Locarno desde 2021. "Carismática e multifacetada, ela soube mergulhar em contextos e papéis muito diferentes, guiada por seu extraordinário talento e generosidade como artista. Ao longo dos anos, ela conseguiu alternar entre filmes de arte e blockbusters, infundindo em cada filme um novo aspecto de sua personalidade. Homenagear Golshifteh Farahani significa celebrar uma artista extraordinária que deixou uma marca profunda nos olhos e nos corações de todos os amantes do cinema."

Imortalizada na Netflix pelo thriller de ação "Resgate" ("Extraction", 2020), fenômeno de audiência do streaming durante a pandemia, Golshifteh já filmou com Abbas Kiarostami ("Shirin"), Marjane Satrapi ("Frango Com Ameixa"), Ridley Scott ("Rede de Mentiras"), Rolland Joffé ("There Be Dragons") e Rachid Bouchareb ("Simplesmente Uma Mulher").

"Não quero ser mais uma profissional não americana à mercê de Hollywood que só pode viver terroristas ou vítimas do terror. Quero ir além e trabalhar onde eu possa fazer diferença", disse a atriz ao Correio.

Este ano, Locarno vai homenagear as estrelas Lucy Liu, Emma Thompson e (o já citado) Jackie Chan, além da figurinista Milena Canonero e o diretor Alexander Payne. Em 2025, a competição pelo Leopardo dourado corre sob o crivo do júri presidido pelo diretor cambojano Rithy Pahn. O Brasil entra na produção de um dos concorrentes mais esperados: "Drácula", do romeno Radu Jude. O filme é produzido pela RT Features de Rodrigo Teixeira. Entre seus concorrentes, impõem respeito "Mektoub, My Love: Canto Due", do franco-tunisiano Abdellatif Kechiche; "As Estações", da portuguesa Maureen Fazendeiro; e "Dry Leaf", do fabulador georgiano Alexandre Koberidze.

Uma das atrações mais esperadas de Locarno este ano é a nova versão (agora musical) de "O Beijo da Mulher Aranha", o livro de Manuel Puig (1932-1990), que inspirou um dos maiores êxitos do diretor Hector Babenco (1946-2016), em 1985. Jennifer Lopez encarna o papel que foi de Sonia Braga. O longa, dirigido por Bill Condon, passa no encerramento do festival, e tem Diego Luna e Tonatiuh nos papéis que foram de Raúl Julia (1940-1994) e William Hurt (1950-2022), que ganhou o Oscar pela versão de Babenco, interpretando o decorador Molina.