Paulo César Peréio velho (de guerra) na Berlinale
Aplaudido no festival alemão nos premiados 'Os Fuzis' e 'A Queda', o ator morto em 2024 enche o evento de saudades com projeção de 'Iracema, Uma Transa Amazônica'
Moleque ainda, ali pelos 23 anos, Paulo César Peréio (1940-2024) encheu a telona da Berlinale com sua irreverência (afiada já nessa sua fase de galeto ao belo canto) ao integrar o elenco do longa-metragem que rendeu o Prêmio Extraordinário do Júri de 1964 ao Brasil, "Os Fuzis". A direção é de Ruy Gurra, que, 14 anos depois, retornou à competição germânica com sua continuação, "A Queda" (rodada em dupla com o ator Nelson Xavier). Peréio integrava sua trupe também.
Com esse drama sociológico, Guerra repetiu a dose da premiação original. Em 1978, papou o Prêmio Especial do Júri berlinense pela fita. Essa mesma láurea foi dada por Berlim antes a um outro cult (e sucessaço de bilheteria, com 1,7 milhão de ingressos vendidos) também estrelado pelo ferrabrás gaúcho: "Toda Nudez Será castigada" (1973). Ele ainda foi visto por lá em "Ao Sul Do Meu Corpo" (1981), "Dias Melhores Virão" (1990) e no curta "Plano-Sequência" (2003), de Patrícia Moran. Ano passado, sem pedir licença à saudade da gente, abusado como ele só, Peréio foi aprontar noutras latitudes - lá em Cima... ou, segundo muitos, lá nos Quintos dos Infernos, "abraçando o Capeta", como dizia.
Esteja onde estiver, nesta tarde, o astro há de abençoar a carreata da versão restaurada de "Iracema, Uma Transa Amazônica" (1974) pela maratona cinéfila europeia que tanto curtiu seu talento.
Dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, esse clássico on the road entrou em restauração em terras alemãs sob a coordenação técnica de Alice de Andrade, com o apoio do CTAV, Mnemosine, IMS, PUC Rio, Instituto Guimarães Rosa e da Cinemateca Brasileira. Entrou na Berlinale nº75 num bonde de doze filmes brasileiros e três séries nacionais, radicado na
seção Forum Special, sob a curadoria de Barbara Wurm.
Na trama, a adolescente indígena Iracema (Edna de Cássia) deixou sua família e mal consegue sobreviver trabalhando como garota de programa na cidade de Belém do Pará. Na labuta do sexo pago, ela conhece o caminhoneiro Tião Brasil Grande (Peréio, monumental em cena). Não há um pingo de modos em Tião, um tipo inescrupuloso e falastrão que faz apologia do Milagre Econômico apregoado pela ditadura militar nos anos 1970. Leva Iracema para a rodovia com ele, numa jornada de múltiplos prazeres e injustiças sociais.
A sessão desta segunda em Berlim será no Zoo Palast. Rola mais uma na quarta-feira, no cine Arsenal. O filme faz um misto de documentário e ficção em sua engenharia dramatúrgica, o que galvanizou o ar de ferocidade debochada de Paulo César, cujo sobrenome à vera é Campos Velho. Peréio é uma variação dos apelidos de infância "Nego Véio" e "Vevéio".
Este ano, além da passagem póstuma pela Berlinale, ele será visto (e aplaudido) em nossas salas de exibição na carreira comercial de "Brizola - Anotações Para Uma História", .doc de Silvio Tendler no qual dá depoimento. Ganhou ainda homenagem da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ), por sua relevância para o nosso legado audiovisual.
Nos sets, Peréio zoava com a fama de escroto que conquistou (e cultivou) depois de dar trabalho para muita, mas muuuuita gente. Um aposto sugestivo - "o homem que foi expulso de uma suruba por mau comportamento" - acompanhava o astro do blockbuster "Eu Te Amo" (1981) em seus porres, suas fungadas insólitas, suas imposturas, mas, sobretudo, em suas incursões sempre dionisíacas nos palcos, na TV e (sobretudo) na telona. Atravessou os mais variados movimentos estéticos do cinema brasileiro, amparado por seu vozeirão. Nenhuma voz de nossa indústria cinematográfica foi mais possante (e marcante) que a dele, ecoando para além de seus filmes, em locuções que fez, na publicidade e em mídias audiovisuais diversas.
Passou pelo Cinema Novo ("O Bravo Guerreiro"; "Terra Em Transe"), pelo Cinema Marginal ("Bang Bang") e pela Retomada ("Harmada"; "O Homem do Ano"). Ganhou Kikitos, Candangos e o troféu Oscarito de Gramado, em seu Rio Grande do Sul natal, que coroou sua adorável impostura como forma particularíssima de combater a caretice nacional. Esse combate será apreciado pela Berlinale, mais uma vez.