Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA FILME - LICENÇA PARA ENLOUQUECER: O barato da neochanchada

Nelson Freitas com Danielle Winitis, Mônica Carvalho e Michelle Muniz em 'Licença Pra Enlouquecer' | Foto: Divulgação

 

Companheirismo é o assunto que serve de bússola à obra do sino-brasileiro Hsu Chien Hsin (de "Desapega"), fazendo dele um diretor-autor. O tema entra em seu mais recente (e caloroso) filme, "Licença Para Enlouquecer", numa relação espacial, quase de cavação publicitária, com a paradisíaca Maragogi, em Alagoas. Contudo, é pelas raias da neochanchada que o longa-metragem dilui sua essência de "publicidade" e se estabelece (com múltiplas potências) como trama cômica.

O filão que lhe abraça, a tal da "nova chanchada", ganhou esse nome em 2012, durante um acirrado debate do diretor de TV Maurício Sherman (1931-2019), a cineasta Betse de Paula e o diretor e produtor Marcelo Lafitte (1963-2019), na Caixa Cultural, sobre a herança das comédias carnavalescas feitas no Brasil (com Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Zé Trindade) sobretudo entre 1934 e 1962.

Eram narrativas com sequências musicais, pautadas por machinhas. Porém, o que havia de mais rico, entre os números de canto e dança, eram crônicas de costumes nas quais artesões do humor mediavam conflitos sempre vetorizados por dilemas socioeconômicos. A partir do doce "Os Paqueras", dirigido pelo ator Reginaldo Faria, em 1969, esse modelo de fazer rir regressa, agora sob o vetor da ditadura militar e da necessidade histórica de se gozar o prazer da liberdade sexual. O nome que adquire: pornochanchada. É um rótulo que vai mobilizar as telas do país por anos a fio, até 1985, quando incursões de David Cardoso ao reino do erotismo fecham a tampa de uma das mais populares expressões de nossa picardia.

O paradigma do "chanchar" só volta a ser aberto em 2005, quando "Se Eu Fosse Você", vende cerca de 3,5 milhões de ingressos.

Ali Daniel Filho estabelece a mirada que serve de tônus a Hsu em "Licença para Enlouquecer": as neuroses das classes sociais que se erguem a partir da primeira Era Lula (2003-2010) e das que despencam na pirâmide do consumo nesse mesmo período. Ninguém, nas artes, além do cinema, voltou seu olhar para os fenômenos sociológicos de quem ascendeu das classes C, D e E, deixando para trás a pobreza do Plano Cruzado, dos Cruzados Novos, das URVs ou do princípio do Plano Real. Só a TV, posteriormente, com "Cheias de Charme".

Mas a telona o fez antes. Não por acaso, "De Pernas Pro Ar" (2010) e "Até Que A Sorte Nos Separe" (2012) se tornaram franquias rentáveis cartografando sentimentos de personagens que se catapultaram aos olhos do mercado na gangorra cartesiana do "consumo; logo, existo".

Fenômeno recente, "Os Farofeiros 2" é a síntese desse princípio. Seus protagonistas são movidos pela pindaíba que podem assombrá-los, obrigados a curtir umas férias frustradas, em bando, para fugir de ruínas profissionais. Essa equação assegurou para o longa de Roberto Santucci, bem escrito por Paulo Cursino (o Midas da neochanchada) cerca de 1,5 milhão de espectadores.

Pratica-se a neochanchada também na Argentina, vide os sucessos de Adrián Suar (como "30 Noites Com a Minha Ex", hoje na grade da plataforma Star ). A Espanha é rainha nessa linha cinematográfica, vide "Chavalas" (2021), de Carol Rodríguez Colás, e as produções do catalão Cesc Gay, como "Sentimental" (2020) e "Historias Para No Contar" (2022).

Roteirizado por duas de suas atrizes (Mônica Carvalho e Michele Muniz) com Marcelo Corrêa, "Licença Para Enlouquecer" envereda-se por essa seara dos quiproquós financeiros e de saídas estratégicas para driblar o bolso vazio recriando os perrengues da pandemia. Visualmente, a fotografia dionisíaca de Silvia Gangemi (hoje uma das mais eficazes operárias da luz em nosso audiovisual, sempre espartana, com soluções artísticas engenhosas) já lhe assegura força plástica, deixando sua dramaturgia se prender à força da palavra.

Todos as histórias narradas por Hsu, nos longas, são palavrosas, vide seu impecável "Quem Vai Ficar Com Mário?" (2021), só que numa medida coesa entre os verbos ditos e o tempo dos planos. Cada fala é um sabor, que ele administra com sabedoria. Só que o paladar reinante na primeira metade de seu mais recente longa é o do risco: do despejo, do desemprego, da falta de crédito, do aperto.

Uma das sequências que servem como um achado ao espírito cronista de "Licença Para Enlouquecer" é o momento em que Sara (Mônica Carvalho), Lia (Danielle Winits) e Leia (Michele Muniz, sempre hilária) ficam confinadas num "apertamento", em São Paulo, à mercê da covid-19, socadas numa cama em que mal cabe uma. A deixa de uma amiga para que as três animem um evento, em solo alagoano, leva o trio para Maragogi, onde Leia esbarra no marido que a abandonou, vivido pelo dínamo da gargalhada varejão André Mattos.

Mas existe uma marca agridoce na filmografia de Hsu, herança de sua cinefilia apaixonada por comédias tristes italianas (em especial, as de Dino Risi e de Ettore Scola), na qual o pranto e a dor diluem o que há de engraçado. Doses demasiadamente humanas de aspereza, desamparo, fragilidade e de reflexão sobre as carências nossas de cada dia são encarnadas na figura do síndico Carlos, "O" personagem de "Licença Para Enlouquecer". Personagem que prova o quanto o Jeff Daniels do Brasil, Nelson Freitas, tem diapasão interpretativo amplo.

Não há uma sequência em que ele apareça em que a câmera não se renda à sua entonação vocal serena, balizada numa expressão facial de firmeza, que esconde as variadas desinências do verbo "perder"... "perder alguém". Essa perda é uma das viradas mais tocantes de um filme que, prejudicado aqui e ali por planos de cartão-postal facilmente limáveis, sustenta-se (muito bem) no retrato de amizades que brotam (ou se renovam) na instabilidade. Suas três estrelas se equilibram com garbo e gáudio nos papéis - cada uma, Danielle, Mônica e Michele, com um lampejo distinto, todas bem afinadas -, coadjuvadas por um Nelson gigante (como lhe é de costume, desde "Muita Calma Nessa Hora").

 

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