Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

Lavoura aberta para Clarice Lispector

A Paixão Segundo G.H. | Foto: Divulgação

Depois de uma avassaladora passagem pelo Festival do Rio e pela Mostra de São Paulo, "A Paixão Segundo GH", o novo longa-metragem de Luiz Fernando Carvalho, derrama seu lirismo sobre a Holanda, numa passagem por Roterdã. É a volta do mais ousado diretor de TV do Brasil ao cinema, cerca de 23 anos depois do cult "Lavoura Arcaica" (2001).

Numa atuação radical, porém, muito afetiva, Maria Fernanda Cândido brinda o cinema nacional com seu talento e carisma numa atuação em que reage, com suavidade de gestos, ao texto de Clarice Lispector (1920-1977), publicado em 1964.

A trama esbanja existencialismo: Depois de despedir a empregada, G.H. inicia uma faxina no quarto de serviço e vê uma barata. Enojada do inseto, ela decide esmagá-lo. Nesse gesto, diante da massa pastosa e branca da barata morta, ela embarca num processo de desmontagem de sua condição humana.

Em outubro, durante a Première Brasil do Festival do Rio, Luiz Fernando escreveu um pequeno ensaio sobre sua relação com Clarice, pedido do Correio da Manhã. No texto original, ele diz: "Por que filmar GH? Talvez a maturidade esteja exigindo falar menos de mim e mais do outro. A igualdade reivindica suas diferenças mais subjetivas. Só essa será uma entrega real ao outro, avistando aquele que é diametralmente oposto a você, seja em gênero, classe social, raça, religião, espécie e por aí vai... Para que eu filme uma mulher não é apenas preciso, como dizem por aí, acessar meu lado feminino. É preciso muito mais. É preciso me oferendar ao impossível de realizá-lo. A consciência da impossibilidade na mediação com o feminino me arrasta até o centro de G.H., ou de Clarice - como preferirem. G.H. é o feminino em sua potência máxima, libertadora. Diria mesmo revolucionária. Ela nos ensina que há um limite, sim. Mas é necessário ir além do cosmo-política do homem ocidental. O aqui e agora. O ser é um desaparecimento. G.H., ao decidir arrumar sua própria casa começando pelo quarto da empregada, termina por desarrumar-se". 

 

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