Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

ENTREVISTA / EMÍLIO DOMINGOS, CINEASTA | 'A Black Rio influencioutudo o que veio depois em relação à negritude'

Emílio Domingos encerra a programação do Festival de Aruanda | Foto: Divulgação

Anunciado pelo Correio da Manhã quando estava em fase de captação de imagem e busca por arquivos, em plena pandemia, em agosto de 2020, o estonteante "Black Rio! Black Power!" var reverberar pelo Fest Aruanda nesta noite de quarta-feira (6), como atração de encerramento de uma das mais potentes maratonas cinéfilas do país na atualidade, realizada em João Pessoa (PB).

Pouco antes de o júri composto pela atriz Soia Lira e os diretores Rafael Conde e Beto Brant anunciarem os ganhadores da competição oficial, Emílio Domingos vai levar o público do evento para uma viagem no tempo.

Depois de retratar uma das principais manifestações da dança como espaço de resiliência, no premiado "A Batalha do Passinho - O Filme" (2012), e de registrar os estilosos cortes de cabelo da Zona Norte, em "Deixa na Régua" (2016), o cineasta tijucano considerado uma das mais ativas (e premiadas) vozes da cultura periférica carioca no documentário brasileiro, revive nas telas a gênese dos bailes soul no Brasil.

Seu fio condutor é a memória do videomaker e produtor musical Dom Filó. Seu trabalho na equipe de som Soul Grand Prix foi fundamental para a afirmação do movimento negro nacional ao longo dos anos 1970, mesmo sob a pressão da ditadura militar. Domingos aborda a influência da agitação cultural promovida por Filó nos processos de luta por justiça racial de um Rio de Janeiro do período de redemocratização. No papo a seguir, o cineasta explica os rumos de sua dramaturgia.

Que Rio de Janeiro é retratado no seu filme?

Emílio Domingos: Meu filme retrata o Rio de Janeiro do subúrbio, da periferia negra que se organiza, que se mobiliza, que se reúne, que comemora a vida, que afirma a sua identidade e que, nos anos 1970, por meio desses bailes, conseguiu gerar uma grande reflexão sobre a própria negritude. A Black Rio foi um movimento que unia quase um milhão de pessoas por mês, dançando. Lançaram vários discos que invadiram a indústria fonográfica. Começaram a ganhar uma força muito grande a ponto de incomodar, serem boicotados e sofrerem um grande apagamento.

O quanto desse Rio de Dom Filó ainda existe? O quanto dele segue ligado à música?

A Black Rio influenciou tudo que veio depois, em relação à negritude, à própria conscientização do povo negro, e acho que o movimento está muito vivo hoje em dia. Existe uma lacuna entre essa geração atual da internet com o que foi feito nos anos 1970. Mas acho que a década de 1970 foi um período de criação de diversas instituições do movimento negro. Aqui no Rio, destaca-se o IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras), cujo personagem central é seu fundador, Carlos Roberto Medeiros. A Black Rio está presente nos bailes funks no sentido da tecnologia da festa. Eles criaram essa tecnologia do baile que a gente tem hoje. Em termos ideológicos, acho que no hip hop e no rap brasileiro, a afirmação do negro, numa politização importante, deve muito à Black Rio. Os bailes não eram só diversão. É isso que o filme tenta mostrar.

Qual é a maior contribuição de Don Filó para o Rio e que lugar ele ocupa na luta contra as práticas racistas?

O Dom Filó tem inúmeras contribuições. É difícil dizer uma, mas, talvez, o principal aspecto seja o fato de ele ser uma figura articuladora e agregadora, que, através dos seus bailes, mobilizou muita gente e mudou a vida de muitos. A mudança foi no sentido de fazer com que as pessoas descobrissem a sua própria identidade negra. Os bailes eram um espaço de lazer, mas eu sinto que o Filó trouxe uma politização, uma conscientização que era algo novo no período. Ele pensava grande. Era um homem que conseguiu mobilizar muita gente e modificar a vida de muita gente. Esse é um pequeno recorte falando do período da Black Rio. Mas, se a gente pensa no trabalho que ele desenvolve no Cultne (https://cultne.tv/), que é o arquivo de cultura negra, de audiovisual negro, que é um banco de imagens audiovisuais - uma referência na América Latina, com imagens de muitas figuras importantes da História do Brasil -, só cresce a sua relevância. É um arquivo muito completo. Aprendi muito vendo as imagens do Cultne e o filme é só um lado do filó.

De que maneira consciente esse novo .doc conversa com sua obra anterior?

Continuo a fazer filmes sobre a juventude negra de periferia do Rio de Janeiro. A gente volta no tempo e aquelas pessoas ao redor do Dom Filó têm hoje 70 anos, mas a gente está falando de um período de juventude, nos anos 1970, que tem eco no presente. Foi um período muito difícil para o Brasil e muito difícil para essa população. Foi um período de muita violência. Não que as coisas tenham mudado, mas acho que a ditadura militar perseguiu os bailes, perseguiu as lideranças. Era um risco grande andar com cabelo Black Power no Rio de Janeiro nesse período. Olhando meu cinema, esse filme dialoga com a juventude vibrante do Rio de Janeiro dos anos 2010, que a gente retratou na "Batalha do Passinho". Dialoga com toda a mobilização das organizações desses dançarinos em torno da cultura de resistência que é o Passinho. Sinto que aquilo que o pessoal da Black Rio estava fazendo deixou muitos frutos, mesmo que de modo inconsciente. Eu poderia fazer esse paralelo até mesmo com o meu filme "Favela é Moda", retratando a agência de modelo negra do Jacaré, que está ali tentando se afirmar num país extremamente racista e que cria inúmeras barreiras para essa população.

 

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