Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

Sou Saraceni de coração

Saraceni tem seus filmes exibidos no evento da região serrana | Foto: Alexandre C. Mota/Divulgação

A partir de sua arrancada perfumada a inclusão, com "Raoni - Uma amizade improvável", documentário dirigido por Jean-Pierre Dutilleux, exibido quinta-feira (23), o Festival de Petrópolis corrige uma indelicadeza histórica do nosso audiovisual ao prestar a homenagem póstuma que um de nossos mais delicados criadores de imagem tanto merecia e, até hoje, não teve: Paulo Cezar Saraceni (1932-2012).

Sem pedir licença à nossa saudade, ele se foi há onze anos, deixando em seu legado cults como "O Desafio" (1965) e "A Casa Assassinada" (1970), que escreveram seu nome no panteão de excelência de nossa produção cinematográfica. Realizado no Cine Show Petrópolis e no Centro de Cultura Raul de Leoni, o evento vai projetar algumas de suas pérolas.

Nesta sexta, às 14h, tem "O Viajante" (1998) e, no sábado, "Arraial do Cabo", de 1959 (curta laureado com o Prêmio Henri Langlois da Cinemateca Francesa), e "Ao Sul do Meu Corpo", que foi exibido na Berlinale em 1983.

Berlim se encantou com essa versão lúdica do conto "Duas Vezes Com Helena", escrito pelo crítico Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), no livro "Três Mulheres de Três Pppês".

"Depois de oito anos de Festival de Cinema de Petrópolis, é uma alegria imensa homenagear o Paulo Cezar Saraceni, meu tio-avô, que era um grande artista, grande fazedor de movimentos, uma pessoa que sempre levantava a bandeira de afeto", diz Daniela Bressianini, uma das diretoras do evento.

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'Só na liberdade é possível fazer um cinema diferente'

'Capitu' foi exibido no Festival de Cannes de 1969

Tem muito filé no cardápio do evento petropolitano, a começar pela estreia nacional do longa "De Pai Para Filho", de Paulo Halm, neste sábado, às 16h, seguido pelo aguardado "Vermelho Monet", de Halder Gomes, na sequência, às 18h. Mas a chance de prestigiar Saraceni e rever sua obra magistral torna a programação do festival um dever cinéfilo.

Estrela nos gramados nos anos 1950, quando jogava (com o gáudio de ser tricolor) pela escrete juvenil do Fluminense, o diretor carioca injetou lirismo nas veias do Cinema Novo. Passeou por Cannes em 1969, com "Capitu", e esteve por lá de novo em 1988 com "Natal da Portela", na Quinzena de Cineastas. "Só na liberdade é possível fazer um cinema diferente", dizia Saraceni.

No auge de sua performance futebolística, Saraceni resolveu virar cineasta após ter assistido a uma sessão de "Greed" ("Ouro e Maldição" no Brasil), de Erich von Stroheim. Entre 1962, quando rodou seu primeiro longa ("Porto das Caixas"), e 2011, ano de "O Gerente", derradeiro trabalho de sua vida, o diretor dedicou-se a filmar produções pautadas pelo lirismo. Uma das mais tocantes é o documentário "Banda de Ipanema — Folia de Albino" (2003). Na Retomada, Saraceni só teve chance de emplacar uma ficção: o já citado "O Viajante", que lhe rendeu uma menção especial da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) no Festival de Moscou, em 1999. A projeção em Petrópolis hoje abre a telona da cidade, Centro de Cultura Raul de Leoni, para o desempenho precioso de Paulo César Peréio ao lado de Nuno Leal Maia.

Com recorrência, o nome de Saraceni reabre uma controvérsia histórica em torno da frase "Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça". Embora seja atribuída a Glauber Rocha (1939-1981), ela teria sido cunhada por Paulo Cezar. Mas o que de fato importava entre eles era a amizade, como ele disse ao Globo, em 2010, num dia de jogo da Copa do Mundo. "A morte do Glauber me dói todo dia. Pouco antes de morrer, em 1980, Glauber foi ao cinema comigo, ver 'Gigolô Americano', do Paul Schrader, com Richard Gere. Quando a sessão acabou, ele virou para mim e perguntou: 'Paulo Cezar, você sabe fazer isso aí? Sabe filmar como os americanos estão filmando?' E eu: 'Não.' Aí ele disse: 'Então, Paulo Cezar, você está fodido'. Acho que ele estava certo".

No início dos anos 2000, a Versátil prensou em DVD seu magistral épico existencialista "Anchieta, José do Brasil" (1977), que arranca de Ney Latorraca uma das atuações mais radicais de nosso cinema. Em 2011, a Mostra de Tiradentes abriu suas atividades daquele ano homenageando Saraceni com uma exibição em tela grande de "O Gerente", que tem o já citado Latorraca numa trama baseada em Carlos Drumond de Andrade (1902-1987). O Bardo de Itabira era um dos vetores líricos de Paulo Cezar, assim como o compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974). "O segredo de se filmar o amor é a dignidade", dizia Saraceni. "Rossellini ensinou o cinema a ser digno".

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