ENTREVISTA / ALINE CAMPOS: 'O meu lado suburbano me aterra, impede que eu me deslumbre'
Coadjuvante com maior tempo em tela em "O Porteiro", que estreia neste fim de semana com a promessa de se tornar a maior bilheteria brasileira de 2023 - e cheio de força para isso -, a atriz Aline Campos vem angariando elogios por seu ferramental cômico a cada novo filme que faz.
Foi o ímã dos elogios destinados a "Um Dia Cinco Estrelas" e tem tudo para levar a plateia às gargalhadas em "Os Farofeiros 2", repetindo o papel de Elen, vista antes no filme original da franquia de Roberto Santucci, vista por cerca de 2,5 milhões de pagantes em 2018. Seu timbre para o humor, repaginando o papel da heroína romântica à moda Goldie Hawn de outrora, fez com que atraísse a confiança de um recordista de público já indicado ao Oscar e ao Urso de Ouro de Berlim, Bruno Barreto.
Ele é diretor do esperado "Férias Trocadas", outra aposta de salas lotadas em nosso circuito. Lançamento após lançamento, o prestígio de Aline cresce. A comparação de sua figura com a mexicana Salma Hayek envolve mais do que semelhanças de perfil. Salma refutou miradas objetificadoras, sem renegar um arquétipo de exuberância, mas sabendo ampliá-lo e potencializá-lo a partir de sua aposta no filme "Frida", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar há 20 anos. Aline embarcou com elegância nessa trilha, a da ruptura com os códigos do sexismo e apostou no riso como caminho para se firmar como estrela, em ascensão.
Como você avalia as formas de representação da mulher no audiovisual hoje diante das pautas feministas?
Aline Campos: Tenho um filho. Meu principal cuidado hoje é saber educa-lo longe de todo o machismo que está arraigado na nossa cultura. Nós, mulheres, como bruxas empoderadas que fomos, precisamos saber ensinar de forma amorosa, e não com agressividade. O feminismo já está conquistando incríveis e tem mais por vir, pois há muito a se mudar. As lutas feministas precisaram ter um certo exagero em suas ações para equilibrar os exageros machistas que nos cercam. O mesmo vale para as pautas LGBTQIA . Graças a essas lutas muitos preconceitos têm caído e novas possibilidades estão se abrindo.
"O Porteiro" começou sua carreira pela Zona Norte do Rio, que também é sua terra, não é?
Sou do Méier.
O que você traz dessa vivência suburbana para o cinema?
Do Méier eu trago o pé no chão. Venho de escola estadual e estudei balé clássico, uma arte que me levou da situação mais humilde à um ambiente de luxo na arte. O meu lado suburbano me aterra, impede que eu me deslumbre. A escola rígida do balé me deu disciplina.
O que você encontrou de mais potente no humor, que virou seu veio no cinema?
Na comédia, eu posso compartilhar a minha realidade e levar às pessoas a me olharem de forma descontraída, sem medo da entrega, deixando minha essência disponível ao flow de cada projeto. Quando trabalhei com o Hsu Chien em "Um Dia Cinco Estrelas", cabia o improviso, ele valorizava muito isso. Em "O Porteiro", no método do Paulo Fontenelle, menos, a gente trabalhava mais com o texto, no convívio com o Alexandre Lino. Tudo é questão de confiar e saber se entregar aos papéis.
