Rodrigo Fonseca: Precisão suíça
Principal evento cinematográfico das terras helvéticas, Locarno celebra o vigor atual de sua produção local, que se destaca nas telas da Europa com o premiado 'A Piece of Sky'
Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã
Apesar ter chorado a perda de seu mais aclamado realizador - Jean-Luc Godard - em 2022, o cinema suíço vem chamando a atenção de redes exibidoras e plateias cinéfilas há cerca de 18 meses, de que "A Piece Of Sky"("Drii Winter") fez sua primeira exibição pública, na Berlinale, de onde saiu com uma menção honrosa. Não por acaso esse belíssimo (mas doloroso) longa-metragem do ator e cineasta Michael Koch - até hoje inédito em solo brasileiro - ganhou telas e aplausos no maior evento audiovisual de sua pátria, o Festival de Locarno.
Ao organizar a seleção competitiva da 76ª edição do Festival de Locarno, iniciada anteontem com "Dami", o crítico Giona A. Nazzaro, curador do evento, declarou ao Correio da Manhã seu cuidado em valorizar a "prata da casa", selecionando pérolas de seu país para diferentes mostras: "O maior orgulho que temos é o fato de nosso cinema não comportar rótulos, à força de uma jovem geração que aposta em maneiras ousadas de filmar", disse Nazzaro, que recheou a mostra paralela Panorama Suíço de potenciais joias como "Foudre", de Carmen Jaquier, e "I Giacometti", de Susanna Fanzun.
Mas a boa impressão deixada por "A Piece Of Sky" segue na memória do evento. Nele, Koch desconstrói a paisagem de postal dos Alpes ao narrar, numa estrutura de tragédia grega, as angústias de um casal diante de uma doença terminal. Um casal num mundinho rural, onde os animais são parte afetiva da vida dos protagonistas, encarnados por atores não profissionais, ligados ao trabalho com gado. "Quis filmar num lugar que parecesse o Paraíso, para revelar suas entrelinhas, expondo toda a fragilidade humana em sua paisagem", disse Koch ao Correio da Manhã.
Orientada por Koch a despistar qualquer indício de cartão-postal a ser encontrado a seu redor, na exuberância dos Alpes, a fotografia de Armin Dierolf busca sempre evitar planos abertos, e se dedica a detalhes. Não existem um esmero em se ressaltar a exuberância da vida alpina. As exceções de esplendor estão nas sequências em que o realizador de "Marija" (2016) precisa mostrar como é o trabalho de seus personagens nas montanhas, como funciona o fluxo de transporte de arbustos por meio de teleféricos e como se dá o cuidado com o gado. Todo o elenco é de intérpretes sem experiência profissional. Os protagonistas são Michèle Brand, como a funcionária dos Correios e atendente de um bar Anna, e Simon Wisler, escalado como o vaqueiro Marco. São vidas pautadas por uma aparente simplicidade e por repetições. Acompanhamos um amor regado a raios de sol entre os dois na paisagem de Alois, que é uma remota aldeia alpina suíça. Anna tem uma filha, Julia, de um relacionamento anterior, a quem sustenta a duras penas. Mas a menina é como filha pra Marco. A cumplicidade naquele par é perfeita. Mas um triângulo indesejado - e sem prazer algum - vai devassar a paz entre eles, quando o corpo do rapaz é lastimado por um câncer que lhe devora o cérebro. Uma frase do roteiro expressa o mal que se avizinha: "Uma tempestade levou Marco à força".
"Neste momento de cultura dos streamings, é preciso que o cinema se afirme na condição de espetáculo que tem, sem abrir mão da dimensão humana", disse Koch em Berlim.
Antes de ter seu tumor diagnosticado, Marco só demonstrava tristeza quando uma de suas vacas caia doente. Ele tinha a fauna à sua volta como um lar. E não se trata de um desenho ingênuo de personagem. Koch buscou retratar a relevância essencial dos animais e das plantas para quem vive em universos rurais, longe do progresso urbano, sem bolsões de concreto armado. "Quis retratar todas as vidas que desenham aquele mundo", disse Koch.
Na competição oficial do evento, que traz 17 filmes em disputa pelo troféu Leopardo de Ouro, Locarno já emplacou um primeiro sucesso: o hilariante "Yannick", de Quentin Dupieux, que já estreou comercialmente em sua terra natal, a França. Trata-se de uma discussão (brilhante) sobre o fosso de classes sociais embalada no faniquito dado pelo personagem título - um representante do operariado francês vivido por Raphaël Quenard - quando vai a uma peça de teatro, numa casa de espetáculos burguesa, e considera o texto enfadonho. De arma em punho, ele força o elenco a encenar um novo texto. A tensão que essa premissa cria na tela grande é recebida pelo público do cinema sob o filtro do humor nas raias do absurdo de Dupieux, conhecido no Brasil por "Rubber" (2010) e ""Deerskin - 100% Camurça" (2019).
