Por Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Confetes, serpentinas e ironias carnavalizaram curtas-metragens como "Rainha" (2016) e "Alfazema" (2019) que levaram a indústria do cinema, lá fora e aqui, a enxergar a estética de Sabrina Fidalgo como um aríete contra a exclusão, alimentando um apetite voraz para ver seu talento se expressar em longas. Essa fome será saciada assim que ela concluir "Time to Change", documentário com a produtora Gullane, envolvendo a Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil, com apoio da Ford Foundation.
A seu lado, numa direção a quatro mãos, está o fotógrafo suíço de streetstyle Yvan Rodic. Ela frisa sempre que o .doc é mescla vivências bem distintas - uma mulher preta brasileira, cineasta e um artista visual branco da Suíça - num combate ético para responder uma questão histórica: como decolonizar o mundo e o sistema?
Iniciado há um mês, "Time To Change" investiga como o privilégio branco ainda molda todos os aspectos das sociedades ao redor do mundo, inclusive no Brasil. É um ensaio sobre "mentalidades coloniais". No meio do processo, Sabrina antecipou o que está por vir ao Correio da Manhã.
Onde você e Yvan já rodaram? Onde ainda vão rodar? O que te pauta nessa aventura?
Sabrina Fidalgo: Já rodamos na Argentina, Brasil, Portugal, Inglaterra, França, Suíça e Alemanha. Haverá ainda uma segunda parte em outros países, mas estamos finalizando a captação de recursos. O documentário é basicamente um road movie que nos acompanha nessa investigação sobre os desdobramentos atuais desses 600 anos de projeto colonial eurocêntrico, cujas consequências podem ser percebidas de diferentes maneiras tanto no Norte quanto no Sul global, tanto na minha vida, quanto na do Yvan.
Seu cinema é um híbrido entre .docs e ficções, com o longa "Karnaval" já a caminho. O que essa imersão no real te revela?
Meu cinema tem pouco ou nada a ver com o hiper-realismo. Gosto de fabular imagens, gosto da fantasia. "Time to Change" é um documentário que carregará muita poética de imagens consigo. Por esse motivo, estou filmando pela terceira vez com minha parceira Júlia Zakia, diretora e fotógrafa de cinema. Nós estamos desenvolvendo uma afinidade artística muito poderosa no que diz respeito à fabulação de imagens, por mais realistas que essas possam vir a ser.
Recentemente, o professor Muniz Sodré defendeu que o racismo brasileiro não é estrutural e, sim, ainda mais grave: institucional. O Estado tapa os olhos pra ele. Onde e como o cinema consegue denunciar essas práticas de exclusão?
O cinema brasileiro por si só já reproduz esse racismo desde sua gênese. Só quando pessoas não-brancas forem as detentoras do capital (ou do acesso a ele) é que a situação começará a mudar minimamente. Por enquanto, tudo não passa de uma quimera bem forjada. A indústria é demagoga, oferece migalhas para profissionais e artistas não-brancos e periféricos, porque para os racistas é importante continuar no controle e no protagonismo da narrativa mesmo que seja no papel de brancos salvadores que estão ajudando aquele pobre roteirista preto a "impulsionar sua carreira", ganhando nem um 1/4 do que homens brancos ganham, desempenhando a mesma função. Em laboratórios de desenvolvimento de roteiros e editais públicos, segue a mesma lógica. Pessoas como eu, pretas, de classe média, que falam cinco idiomas, não interessam a esses racistas do cinema brasileiro, porque eles jamais poderiam trapacear, negociar valores baixos e, muito menos, atuarem de forma paternalista, porque, nesse caso, nós é que somos os "black saviors" deles. Para os racistas, isso é algo inaceitável. O cinema brasileiro patriarcal, elitista, eurocêntrico e racista não está preparado para esse contragolpe. Por isso pessoas como eu não fazem parte de um BR Lab da vida.
Nos últimos anos, que expressões audiovisuais negras, no mundo, mais chamaram a sua atenção?
Tem várias, desde as artes visuais até o cinema narrativo. No New Museum, tive a oportunidade de me deparar com o trabalho da artista queniana Wangechi Mutu, uma verdadeira poeta do cinema experimental, assim como a estadunidense Madeleine Hunch-Ehrlich, cujo trabalho conheci no Pérez Art Museum Miami. No Brasil, eu gosto muito do cinema desenvolvido por Aline Motta, também cineasta e artista visual refinada, assim como o cinema instigante de Carmen Luz. Recentemente, comecei a me debruçar no cinema da cubana Sara Gómez e estou apaixonada. Em termos de cinema narrativo me chama muito a atenção os filmes das franco-senegalesas Mati e Alice Diop. Recentemente também descobri a cineasta Desirée Kahikopo-Meifret, que realizou um primeiro filme lindo, delicado e triste sobre um romance interracial durante os anos de apartheid na Namíbia, chamado "The White Line".