Por Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Enquanto aguarda a cinebiografia de Bruce Lee (1940-1973) preparada pelo cineasta taiwanês Ang Lee (de "A Vida de Pi") - na qual o cineasta vai dirigir seu próprio filho, Mason, no papel central -, o Festival de Cannes resolveu prestar uma homenagem ao maior ícone das artes marciais nas telas em sua 76ª edição que começa na terça-feira.
Na véspera de encerrar suas atividades, no dia 26 de maio, a Croisette vai relembrar os 50 anos de morte do astro (morte que é alvo de suspeitas, acerca de um possível assassinato, encomendado pela máfia chinesa) com uma exibição de "O Voo do Dragão". Recém-remasterizada, essa produção de US$ 130 mil teve um faturamento estimado em US$ 130 milhões e ficou célebre por mostrar uma luta de Bruce contra Chuck Norris no Coliseu, em Roma.
Paralelamente, "Operação Dragão" ("Enter The Dragon", 1973), a maior superprodução da carreira do astro, orçada em US$ 850 mil, está comemorando cinco décadas de lançamento e está regressando ao circuito em diferentes cidades da Europa e da Ásia em versão restaurada. Seu faturamento, à época, foi de US$ 400 milhões, o que transformou Bruce Lee num dos mais rentáveis nomes de Hollywood.
É possível conferir "Operção Dragão" na Amazon Prime, que reuniu alguns dos melhores filmes do ator em sua grade de streaming, incluindo sua consagração nas telonas, "O Dragão Chinês", de 1971, e "A Fúria do Dragão", de 1972. Na mesma plataforma é possível encontrar uma das mais divertidas homenagens recentes do cinema pipoca ao ás do kunf fu e do jeet kune do: "A Origem do Dragão", lançado no Festival de Toronto de 2016.
Desde "O Grande Mestre" (2013) não se via uma coreografia de luta tão bem elaborada, e tão conectada com fatos reais. A trama de "Birth of the Dragon" aproveita filamentos de um episódio real do passado de Bruce Lee, em seus tempos como Kato, na série "Besouro Negro", a fim de edificar um enredo de linhas dramáticas que favoreça a ação e o suspense. A trama dá uma contribuição à teoria da conspiração acerca do suposto assassinato do astro rei do Kung Fu (ainda que o laudo médico de sua morte fala de edema cerebral), pelas mãos da máfia. A intriga de predestinação deste filme pilotado por George Nolfi (roteirista de "O Ultimato Bourne") envolve um confronto ocorrido nos EUA, em 1965, entre Bruce e o mestre maior do embate corpo a corpo lá na Ásia, o monge Wong Jack Man.
Esse combate teria feito de Lee uma lenda nos bastidores das pelejas (e do submundo do crime). Mas o enfrentamento deles é espichado no roteiro para algo mais: ele serve de trampolim para um quiproquó de pontapés e socos envolvendo a presença das Tríades (a célula mafiosa chinesa) em solo americano. Yu Xia interpreta Wong com uma leveza contagiante enquanto Philip Ng encarna Bruce esbanjando canastrice, fazendo dele um tipo malandrão, abusado e vaidoso. Mas mesmo nos momentos mais caricatos, o longa-metragem de Nolfi imprime múltiplas camadas a seus personagens, fazendo deles pessoas com muitas contradições. E a cadência febril das colisões entre Bruce e Wong com os agentes das Tríades garante adrenalina aos litros.