Mr. Long', um cult desaparecido
Thriller japonês, de Hiroyuki Tanaka, desapareceu das telas, até de plataformas, alimentando a curiosidade por uma narrativa de ação aclamada em Berlim
Por Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
De volta ao circuito nacional com "Broker", de Hirokazu Kore-eda, e com "Suzume", desenho que estreia esta semana, com direção de Makoto Shinkai, o cinema japonês já desfilou pelas veredas da brutalidade muitas vezes ao longo de sua história, seja em épicos de samurai (tipo "Yojimbo"), seja em narrativas de ação policial (a trilogia "Ultraje", de Takeshi Kitano).
Mas há poucos thrillers nipônicos recentes tão eficazes como "Mr. Long", de Hiroyuki Tanaka, diretor que filma sob o pseudônimo de Sabu. Sua estreia mundial ocorreu no Festival de Berlim de 2017. Lá, ele disputou o Urso de Ouro e saiu coroado de críticas elogiosas. É um filme que gera epifania, aquela sensação de enlevo quase religioso que a Arte provoca ao colocar o olhar do espectador em transcendência.
Mas o trabalho mais requintado do realizador de "Monday" (2000) e "Miss Zombie" (2013) desapareceu misteriosamente do circuito, das plataformas de streaming e até das lojas vintage de DVD e VHS. O sumiço tornou essa produção um cult.
Eletrizante, "Mr. Long" se escora numa narrativa soberba, que patina pela estranheza e pelo niilismo até fazer da esperança seu ponto de chegada. Com ecos de "Hana-Bi" (1997), de Takeshi Kitano, e de "Drive" (2011), de Nicolas Winding Refn, o concorrente do Japão, protagonizado pelo galã Chang Chen (de "O Tigre e o Dragão"), apresenta um formato de roteiro no qual o que parece tropeço vira requinte, num roteiro que avança entre causa e efeito abrindo digressões de seus personagens paralelos.
E mais, é um filme de ação que vira comédia, que vira melodrama, que vira drama familiar, que tomba pelas veredas do realismo social, mas que volta a ser ação, num arco que jamais perde a harmonia nem a comunicabilidade, apoiado numa precisão de decupagem invejável.
Aberto com cenas de execução construídas nos moldes dos melhores exemplares da Ásia no quesito filme de gângster, "Mr. Long" acompanha a transformação na rotina de um matador de aluguel de Taiwan (Chen), especialista em matar com facas, depois que ele é alvo de uma emboscada em uma missão no Japão. Fadado a morrer, ele consegue escapar e cai num bairro pobre, onde um menino carente lhe ajuda a sobreviver. O guri é filho de uma dependente química. O assassino se recupera e usa itens de cozinha que encontra para fazer um cozido. Esse gesto se repete dia a dia, sempre com o garotinho perto, estabelecendo uma relação silenciosa de amizade. Vizinhos vão sendo atraídos pelo cheiro da comida e passam a enxergar naquele sujeito que só sabe falar chinês um chef de primeira. Sem outra alternativa e necessitado de dinheiro, ele vai cozinhando para os moradores, que montam um carrinho de comida para que ele possa vender suas guloseimas. Nisso, a viciada se restabelece e se encanta pelo jeito cuidadoso do sujeito - apelidado ali de Mr. Long - e acaba se afeiçoando, criando uma vida a dois. Mas, o crime, esse bumerangue social, voltará a bater na porta do trio.
Em seu círculo estrutural fascinante de dramaturgia, "Mr. Long" reforça a relevância do "filme de gênero" como instância de reflexão do real. É um trabalho que dialoga com os melhores filmes de Takashi Miike e Takeshi Kitano.
