Por:

Legado dos infernos de Alan Parker

Alan Parker orienta Mickey Rourke nos sets de 'Coração Satânico' | Foto: Divulgação

Por Rodrigo Fonseca

Considerado pela crítica um dos maiores filmes de terror já rodados em toda a história do cinema, "Coração Satânico" ("Angel Heart", 1987) passou a integrar, recentemente, a grade da Amazon Prime, o que ampliou a corrida pela obra de seu realizador, o inglês Alan P-]ce de filmar um longa-metragem, ]s;.mesmo repleto de projetos e cercado de talento. Não por acaso, estima-se que o Festival de Berlim deste ano (entre 16 a 26 de fevereiro), vá levantar, em seu European Film Market, um debate sobre o legado dele, uma vez que a streaminguesfera esbanja interesse por suas obras polêmicas e sua forma peculiar de arrancar grandes atuações de estrelas controversas.

Mickey Rourke, por exemplo, estava no auge da beleza, do talento e de sua ambição por prestígio quando participou de "Coração Satânico". Seu personagem nesse thriller demoníaco, decalcado do romance "Falling Angel", de William Hjortsberg, é um detetive contratado por um homem misterioso, Louis Cyphere (Robert De Niro), que deseja encontrar um música que lhe deve, chamado Johnny Favorite. A investigação conduz Rourke por terreiros onde se pratica magia das mais profanas, retratando os males que a cobiça desmedida pode gerar.

Na Europa, o filme teve um relançamento em cópias digitais, em DVD e Blu-Ray. O thriller antirracista "Mississipi Burning" ("Mississippi em Chamas", indicado ao Urso alemão em 1989) também ganhou bolachas novas, na DVDteca do mercado francês.

Desde a malfadada trajetória da saga de David Gale pelo circuito internacional, o artista por trás de cults dos anos 1980, como "O Expresso da Meia-Noite (1978) virou uma nota de rodapé nos livros de História sobre as décadas de 1970 e 80. Nem mesmo sua fase final, com iguarias como "Evita" (1996), com Madonna, é lembrada com o devido crédito, como demonstram reportagens sobre o regresso em 4k do horripilante filme noir com Mickey Rourke e Robert De Niro (este no papel do Diabo).

"Parece que não me querem mais, o que me dá mais tempo de ver jogos de futebol na TV. O mundo ficou algo muito antisséptico e analgésico no cinema atual, apostando em redenção mesmo quando se propõe a refletir sobre a realidade. Redenção não é algo que me interessa, pois não tenho apreço pela calmaria, apenas pela chuva forte, pela tormenta, pela ousadia. Sou um artista que mira nas sombras alheias, para entender a verdade que se encobre nas trevas", disse Parker em uma entrevista de 2008, quando esteve no Brasil para participar de um festival na Amazônia, como jurado.

À época, o realizador explicou que filmava interessado em calamidades éticas. Um de seus cults que estão sendo revisitados agora é "Asas da Liberdade" ("Birdy"), com Nicolas Cage e Matthew Modine, que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 1985. Uma nova versão em DVD dele está saindo na França. "Cada dia é mais difícil conseguir financiamento para retratar o que não é calmaria quando você não quer ficar refém de megaorçamentos e de franquias. Sou um cineasta ligado a uma zona intermediária da indústria, sem interesse por roteiros formulaicos, de resultado imediato, movido pelo desejo de fazer filmes de algum porte comercial, mas feitos com seriedade suficiente para provocar os adultos. Isso já não interessa mais tanto quanto nos tempos em que eu construí meu repertório de olhar", disse Parker, cujas obras do passado estarão em debate nas rodas sobre o futuro dos suportes digitais no European Film Market da Berlinale. "Eu transitei por gêneros muito diversos, mas sempre imprimi dor em todos eles".