Por Rodrigo Fonseca
Especial para para
o Correio da Manhã
Prateleiras das mais variadas livrarias e gibiterias da França foram tomadas de assalto por uma experiência entre a ficção científica, a fantasia, o esoterismo e o tarô - tudo aquilo com que o cineasta de 93 anos Alejandro Jodorowsky mexe desde a década de 1960 - chamada "Kill Tête De Chien - L'Incal". Concebida por esse mítico diretor franco-chileno e pelo quadrinista Jean "Moebius" Giraud (1938-2012), a saga sci-fi de pura lisergia "O Incal" nasceu em dezembro de 1980 na revista em quadrinhos "Métal Hurlant" e seus seis álbuns foram publicados entre 1981 e 1988, pela Les Humanoïdes Associés, com o título "Uma Aventura de John Difool".
Cerca de 40 anos depois de sua criação, os quadrinistas Brandon Thomas e Pete Woods retornam àquela saga atrás do ET canino Tête de Chien, explorando suas peripécias sexuais. Seu sucesso editorial inspirou uma nova busca pela obra de Jodorowsky, seja em seus livros de misticismo (com um pé declarado na autoajuda), suas dezenas de HQs (como "A Casta dos Metabarões", que a editora Pipoca & Nanquim acaba de lançar aqui em álbum de luxo) e seus filmes, entre eles o mais famoso: "El Topo", de 1970.
Neste sábado, às 23h59, na programação da mostra Sessões à Meia-Noite - Clássicos do Cinema Underground na Telona -que acaba de inaugurar -, o Estação NET Botafogo vai projetar esse faroeste metafísico que revolucionou padrões de comportamento nos EUA, há 53 anos. Seu caráter maldito fez com que exibidores o projetassem à 0h, inaugurando a cultura dos midnight movies, as sessões na madrugada.
"As folhas secas sonham em dançar com o vento. Às vezes é preciso recuar para seguir em frente", publicou Jodorowsky, em sua conta no Twitter, fazendo jus ao perfil filosófico de sua carreira paralela como tarólogo, xamã e profeta da Psicomagia, mistura de credo religioso e de ciência da qual foi o criador. Em 2019, ele chegou a lançar um documentário sobre a prática dessa sua abordagem metafísica para o real. "Para encontrar nossa verdade, tomemos consciência de nossas mentiras. Uma árvore vale de acordo com seus frutos, não de acordo com sua forma. As coisas mudam de valor de acordo com o local onde estão: na penumbra, nossos ouvidos valem mais do que nossos olhos", são alguns dos ensinamentos do realizador, que assumiu o papel principal de "El Topo", uma produção laureada com o Prêmio Especial do Júri do Festival de Avoriaz, na França.
Esbanjando carisma, Jodorowsky impressiona em sua interpretação no papel de um misterioso pistoleiro, todo vestido de preto, que vagueia por uma paisagem desértica mística, travando duelos - a maioria deles, retóricos - com figuras exóticas, que ensinam a ele (e ao espectador) aforismos sobre a existência.
"Quando 'El Topo' ficou pronto, nenhum exibidor viu um pingo de sentido naquilo. Só um amigo meu que era dono de um cinema pornô, o Elgin. Ele me ofereceu a última sessão que tinha. O sucesso da gente, mesmo naquele horário, foi tanto que muitos diretores foram atrás do Elgin querendo exibir seus trabalhos mais autorais na madrugada", conta Jodorowsky no prefácio do quadrinho "The Sons of El Topo", lançado por ele em 2019, que só nasceu pelo impasse de nenhum distribuidor querer apoiar a volta de El Topo aos cinemas. "Mesmo com o sucesso do nosso filme de 1970, uma continuação era vista com suspeita, o que me levou a contar sua história em desenhos do meu amigo Ladrönn".
Aluno do mímico Marcel Marceu (1923-2007) e colega de dramaturgos como Fernando Arrabal (autor de "O Arquiteto e o Imperador da Assíria"), Jodorowsky seguiu sua carreira no cinema com longas como "Santa sangre" (1989) e "A dança da realidade" (2013). No mercado editorial do Velho Mundo, lançou uma diversidade de títulos, entre eles "O Incal", com Moebius, que pode virar filme num piscar de olhos, a julgar pelo interesse do diretor neozelandês Taika Waititi (de "Thor: Amor e Trovão" e "Jojo Rabbit") na obra do Raul Seixas do cinema autoral. "Filmo a liberdade. Filmo para escapar de fórmulas de sedução da brutalidade. Nem todo bom quadrinho vive de poesia, assim como nem todo grande filme é onírico, mas a realidade a que nos agrilhoamos, nas últimas décadas, é uma contingência bruta, pautada por referências midiáticas de Hollywood, que nos leva a associar o desejo à violência física", disse Jodorowsky ao Correio da Manhã, na estreia de "Psicomagia", há quatro anos. "Estamos vivendo tempos crus e cruéis, de intolerância, carentes de desbunde. Por isso, o cinema deve persistir".
Em 2016, a editora Gryphus lançou no Brasil a coletânea de ensaios "A jornada espiritual de um mestre", em que Jodorowsky explica a gênese de seu xamanismo, numa mistura de Freud com signos arcanos. "Cultuo a fantasia, sem culpa de sonhar e inventar trincheiras de ilusão", diz o cineasta. "A ilusão que me interessa é a ilusão que liberta".