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Pêssego espanhol em Mar Del Plata

'Alcarrás', de Carla Simón (abaixo), é um ensaio emocionado sobre a Europa rural de hoje | Foto: Divulgação

Por Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Assegurado já para os espectadores brasileiros por meio da plataforma MUBI, o streaming que mais cultiva o cinema de autor, a produção escolhida pela Espanha para representar a força de sua produção audiovisual (hoje em apogeu) na briga por uma possível indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional vai passar pela aprovação dos argentinos a partir desta sexta, no Festival de Mar Del Plata. Suas telas serão a nova parada de "Alcarràs", um delicioso estudo sobre a vida em família que rendeu à diretora Carla Simón o Urso de Ouro na Berlinale, em fevereiro. Na semana passada, a produção arrebatou a Mostra de São Paulo.

"Eu tentei dar voz à casualidade a partir da arte do encontro, que minha prática documental me ensinou. Tentei levar o exercício de mirar pessoas em suas vivências particulares para uma ficção que reflete os dilemas reais da Europa rural de hoje", disse Carla Simón ao Correio da Manhã em Berlim, um dia antes de conquistar o Urso dourado no Festival de Berlim.

Sua consagração é parte de um renascimento comercial do cinema de sua pátria. Este ano, o Festival de San Sebastián, no norte da terra de Cervantes, exibiu "Apagón", uma minissérie dirigida por talentos classe AA do cinema ibérico, como Rodrigo Sorogoyen, Raul Arévalo, Isa Campo, Isaki Lacuesta e Alberto Rodríguez, que abriu o evento com "Modelo 77".

"Apagón", "Alcarràs" e o megasucesso "La Casa de Papel" são parte de um processo de expansão global perpetrado pela Espanha, mesmo sob crises econômicas diversas, para difundir sua produção audiovisual planeta afora, consagrando nas plataformas de streaming, nas telas de TV e nas salas exibidoras (que já estão reabrindo) poemas em forma de séries ou filmes. Em 1999, com o sucesso internacional de "Tudo sobre minha mãe", que deu o Oscar a Pedro Almodóvar, as agências de exportação espanholas perceberam que cinema e televisão são, ainda, a maior diversão - hoje, inclua as plataformas de difusão digital nessa conta - e preparam uma série de projetos para fomentar a indústria cinematográfica e as grandes produtoras de conteúdo de TV de sua pátria. O resultado é uma produção que hoje domina Netflix, Amazon Prime, Globoplay e outras redes, contabilizando uma série de projetos de longas ou de seriados que angariam prêmios em todo o planeta, e mobilizam plateias GG, como vem fazendo "As Aventuras de Tadeo e a Tábua de Esmeralda", uma animação blockbuster importada de Madri.

Essa mesma indústria hoje abre champanhe para comemorar as conquistas de "Alcarràs". No passado, em 1978, quando a cineasta paulista Ana Carolina Teixeira Soares ("Mar de Rosas") foi do júri, o evento germânico deu seu troféu dourado a dois longas da pátria de Goya: "As Palavras de Max", de Emilio Martínez Lázaro, e "Las Truchas", de José Luis García Sánchez. O calor daquele momento era político, numa ressaca de franquismo, em dias em que Pedro Almodóvar começava a aparecer. O calor de agora, em que a suarenta paisagem catalã do longa de Carla ferve, é econômico, coroando a bonança midiática daquela país. Na TV, eles bombaram na HBO com "Pátria" e têm alcançado êxito global, em circuito, com "El Buen Patrón", de Fernando León Aranoa. Inclua nessa trajetória de consagrações a boa recepção ao almodrama "Madres Paralelas", indicado a dois Oscars (via Penélope Cruz, como Melhor Atriz, e Alberto Iglesias, por Melhor Trilha Sonora). O aplauso berlinense para Carla veio trazer uma estampa de prestígio a um momento ascendente de uma filmografia que nos deu titãs como Isabel Coixet, Bigas Luna, Luis García Berlanga, Victor Erice e Carlos Saura. "Encontrei pessoas que se sentiram, momentaneamente, uma família, e lutei para reuni-las a partir do cinema", diz Carla, compartilhando com o Correio uma triste descoberta sociopolítica. "Percebi durante o processo que as pequenas famílias de agricultores pode não ter muito futuro pela frente, pelos preços das frutas e pela especulação de grandes mercados".

Todas as dores e delícias de uma das instituições mais desgastadas da contemporaneidade, a vida familiar, inscrevem-se nas telas a partir de vivências catalãs vistas em "Alcarràs", um surpreendente exercício de ficção com pés fincados do real. Cinco anos após o cult "Verão 1993" (2017), a diretora espanhola regressa ao Festival de Berlim - que lhe deu visibilidade no passado - para narrar o dia a dia dos Solé, um clã agricultor que vive da colheita de pêssegos. Nenhum de seus personagens é interpretado por atrizes ou atores com experiências profissionais. Todas e todos foram selecionados em festas populares, antes da pandemia. Após reuni-los, a diretora criou uma célula familiar que gira em torno dos pessegueiros e das brincadeiras de um divertido quarteto de criancinhas. "Crianças mantêm o filme vivo, pois nos trazem o inusitado, a surpresa", disse Carla.

Sua trama é arquitetada como uma crônica do dia a dia dos Sole. o clã é liderado pelo doce brucutu Quinet (Jordi Pujol Dolcet), que luta contra o abuso dos varejistas no valor pago aos rancheiros por frutos e contra a ocupação das terras ibéricas por painéis solares. "Existe um tom de crônica de uma morte anunciada e volta de uma tradição camponesa que envolve o cultivo da terra. Mas tento retratar aquelas pessoas com esperança.", disse Carla à Berlinale.