À luz de Chico Xavier

Aclamado nos palcos por seu trabalho como Gandhi, João Signorelli encara o desafio de encarnar o médium mineiro no filme 'Predestinado'

Por

João Signorelli encarna o médium kardecista em filme de Gustavo Fernandez e nos palcos, em Guarulhos

Por Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Com estreia agendada pra hoje, com a promessa de se tornar um sucesso de bilheteria, o longa-metragem "Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz", de Gustavo Fernandez, confia um dos personagens mais estudados (e amados) da doutrina espírita no mundo, o médium mineiro Chico Xavier (1910-2002), a um ator que se dedicou, nas últimas duas décadas, a falar do pacifismo nos palcos: João Signorelli.

Com vasta experiência da TV e no cinema, ele deu um novo rumo à sua carreira a partir de 2003, quando passou a encarnar Mahatma Gandhi (1869-1948) no teatro, falando sobre um caminho de iluminação. "Gandhi foi um cara que tentou fazer uma ponte para pacificamente resolvermos os nossos problemas. Por meio do ódio só vai se gerar mais ódio. Gandhi simboliza para mim a esperança de um mundo melhor", define o ator, em entrevista ao Correio da Manhã.

Nessa mesma época, começou a pesquisar sobre Xavier, para interpretá-lo também em apresentações teatrais. No sábado e no domingo, ele apresenta no Teatro Padre Bento, em Guarulhos (SP), o resultado de suas reflexões sobre o ícone brasileiro do pensamento kardecista.

No cinema, sua comovente atuação dá um novo fôlego a um personagem histórico antes vivido por Nelson Xavier (1941-2017). Em "Predestinado", Chico cruza os caminhos de José Arigó (1921-1971), interpretado por Danton Mello. Através do espírito de Dr. Fritz, médico alemão falecido durante a Primeira Guerra Mundial, Arigó (Danton Mello) se tornou uma esperança de cura para milhões de pessoas ao redor do mundo. Ele foi alvo de críticas por parte dos mais céticos, mas, com o apoio de sua mulher (Juliana Paes), conseguiu salvar numerosas vidas por meio da cirurgia espiritual. Empenhado em ajudar sem receber nada em troca, Arigó passou a ser reconhecido como um dos maiores fenômenos mediúnicos da história

O quanto "Predestinado" incrementa sua pesquisa sobre Chico Xavier que já vinham do teatro? O quanto a figura de Chico e a de Gandhi conversam no seu imaginário?

João Signorelli: O filme foi feito antes de eu fazer a peça, sobre Chico. Foi o início da minha vontade de fazer um espetáculo sobre o Chico Xavier.

O quanto a figura de Chico e a de Gandhi conversam no seu imaginário?

Conversa de maneira a me dar muita luz, no meu imaginário de ver um mundo melhor, de ver pessoas mais amorosas entre si, respeitando-se mais. Fico sonhando com os dois falando sobre paz e sobre amor. O meu imaginário sonha com um mundo melhor, mas, primeiro, a gente tem que se tornar uma pessoa melhor. Eu me preocupei em contar a história do homem Chico Xavier. É claro que eu tive uma facilidade porque, na caracterização, o Eurípedes (Higino, filho de coração do médium) me cedeu a peruca, o óculos, a camisa, o paletó. Então, já facilitou um pouco a minha caracterização.

De que maneira você desenha a figura do Chico como personagem? Há alguma inspiração na figura que o Nelson Xavier eternizou dele antes de você?

Como ator, procuro deixar esse meu corpo - de um homem urbano de 66 anos, que mora em São Paulo, com essa estrutura óssea de pessoa urbana - deixar transmitir o personagem através dos meus sentimentos, da minha sensibilidade, do meu olhar pro mundo. A inspiração no Nelson vem do fato de que ele era muito amigo meu. Então, de uma certa maneira, fazendo o Chico, eu, no fundo do meu coração, quero prestar uma homenagem a ele.

Que pesquisas você fez para viver o médium?

Li o livro do Marcelo Souto Maior ("As Vidas de Chico Xavier"), vi alguns vídeos no YouTube do Chico falando, assisti várias vezes aquela participação dele no programa "Pinga Fogo". Essa foi a pesquisa.

De que maneira a figura do Dr. Fritz e os feitos de José Arigó servem de alimento ou de reflexão para o seu olhar humanista sobre a religião e a espiritualidade?

A espiritualidade do Zé Arigó e do Doutor Fritz me alimenta muito em todos os sentidos, por mostrar que é possível as pessoas serem curadas por essa gama de espíritos que estão aqui nos moldando. Então, a partir dela, eu sinto que o meu olhar para religião espírita fica com alicerces muito mais sólidos para eu poder vir com um trabalho sobre cura. E o quanto a cura pode trazer esperança para a Humanidade.

Quais são as lições mais tocantes que os teus anos de devoção a Mahatma Gandhi, nos palcos, trouxeram?

As lições mais tocantes são de que é possível a gente se mudar por dentro. E mudando por dentro a gente tenta mudar o nosso entorno. Então, entre as grandes mudanças que eu me propus desde que eu comecei a fazer o Gandhi estava a necessidade de parar de mentir e de cumprir o que eu prometia. Então, essas mudanças foram muito fortes. São lições que eu estou tendo das pessoas que se sentem respeitadas quando você fala a verdade. São pessoas que se sentem respeitadas quando você cumpre o que você promete pra elas.