Só Carioquices: Uma imagem que conta a cidade
Diz a folhinha que o carnaval acabou. Bobagem. O calendário é uma convenção para os que não sabem carregar a festa na alma. Para este que vos escreve, é tudo uma simples troca de turno: o samba sai da avenida e passa a morar, em estado de graça, nos espasmos da memória. Às vezes, essa estadia dura uma vida inteira. E assim será, por exemplo, em razão de uma imagem que se instalou, sem pedir licença, no meu coração.
Falo do "Berço do Samba", aquele tripé de uma simplicidade monumental, fruto da sensibilidade de Tarcizio Zanon, no desfile campeoníssimo da Viradouro em homenagem a Mestre Ciça. Ali, o artista não esculpiu apenas formas; ele moldou o tempo. Naquela estrutura, o Estácio se fez carne. Estavam lá, de pé, no mesmo destino, quatro pilares da nossa civilização urbana: Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha; Luiz Melodia, o "Pérola Negra"; Alcebíades Barcelos, o Bide; e Ismael Silva, o monarca absoluto, o homem que inventou o samba como o conhecemos.
Ao mirar aquele conjunto, experimentei o que Clarice Lispector chamava de instante-já. Um conceito de quarta dimensão que suspende o mundo. O instante-já não é o "agora" corriqueiro, esse que escorre pelo ralo enquanto pensamos nele. É um agora espesso, denso, um ponto de concentração onde o tempo resolve desobedecer ao relógio e ao calendário. Não é lembrança vã, nem expectativa ansiosa. É presença absoluta. É como se o passado e o futuro, cansados de correr em direções opostas, resolvessem finalmente se abraçar e caber na mesma respiração. O instante-já não dura; ele é.
Naquele tripé estava condensada a força telúrica do Morro de São Carlos. O enredo da Viradouro homenageava Mestre Cíça, também cria daquela geografia sagrada, e o elemento cenográfico era o portal para o nascimento da música urbana genuinamente carioca. Desde o início do século 20, o São Carlos já oferecia ao Rio talentos da envergadura de Ismael e Bide. Foi no Largo do Estácio que o samba abandonou o diletantismo das rodas de fundo de quintal para ganhar a cadência do desfile. Ali, o ritmo deixou de ser apenas som para se tornar arquitetura; virou o fundamento das escolas de samba, a gramática do asfalto.
Décadas depois, o mesmo chão produziria outra inflexão na nossa alma musical. Gonzaguinha e Luiz Melodia, mantendo o samba como raiz e o caráter popular como escudo, renovaram a canção da cidade. Eles souberam dialogar com a sofisticação dos festivais, ampliaram o vocabulário da MPB, mas nunca cortaram o cordão umbilical com o morro. O Estácio, mestre em reinvenções, provava que a vanguarda também tem cor e cheiro de favela.
E como esquecer de Dominguinhos do Estácio? Outro filho dileto dessa geografia, também reverenciado naquele desfile. Dominguinhos foi o elo, o cantor do Bafo da Onça, a voz da Unidos de São Carlos, o embrião da Estácio de Sá, até se tornar um colecionador de títulos em outras bandas. Certa vez, o querido Domingos me contou, com aquele brilho nos olhos de quem viu a história ser escrita, que conviveu com Gonzaguinha e Melodia. É a História com "H" maiúsculo se misturando à vida miúda, à descida do morro no fim de tarde, ao café com pão que não cabe nas enciclopédias oficiais, mas que alimenta a alma de um povo.
Causa espanto, ou deveria causar, que uma única favela da região central do Rio tenha sido o epicentro de dois momentos seminais da nossa cultura: a consolidação do samba e a renovação da canção em tempos de chumbo e mordaça. Mas, pensando bem, a surpresa é apenas a nossa ingenuidade batendo à porta. Lugares de margem aprendem cedo a criar, a se reinventar como estratégia de sobrevivência. Onde falta o Estado, sobra o gênio. Onde a bala reprime, a canção liberta.
Para o folião apressado, aquele tripé passou como mais uma referência cenográfica, um adereço no meio do turbilhão carnavalesco.
Para mim, foi uma autodeclaração de reconhecimento, um soco de poesia no estômago da indiferença. No meu instante-já, o Morro de São Carlos não era um passado glorioso de museu, nem uma promessa futura de redenção. Era fundamento vivo. Palpitante.
Quando a origem se mostra assim, sem pedir licença e com tamanha dignidade, a gente finalmente entende: certas geografias não produzem apenas artistas. Elas produzem potência. Produzem História. Produzem vida em estado puro. O carnaval pode até ter ido embora para os distraídos, mas para quem viu a Viradouro com a alma de Estácio passar, a festa apenas começou pra jamais terminar.
