CRÍTICA / CARNAVAL / DESFILE GRUPO ESPECIAL (DIA 2): Viradouro e Beija-Flor lideram segunda noite na Sapucaí
Homenagem ao diretor de bateria Ciça provoca lágrimas nas arquibancadas; Beija-Flor e Tijuca completam noite de alto nível técnico
Homenagem ao diretor de bateria Ciça provoca lágrimas nas arquibancadas; Beija-Flor e Tijuca completam noite de alto nível técnico
Mais quatro escolas de samba desfilaram na segunda noite do Grupo Especial do Rio de Janeiro: Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Unidos do Viradouro e Unidos da Tijuca. A noite reuniu propostas distintas, combinando homenagens, apelo popular, crítica social e disputa técnica por vagas no desfile das campeãs.
O momento de maior emoção ficou por conta da Viradouro, que levou para a avenida um enredo em homenagem ao seu diretor de bateria, Ciça. A escola transformou a trajetória do mestre em eixo narrativo do desfile e provocou forte reação do público ao longo de todo o percurso. O público das arquibancadas se levantou em diversos setores, houve espectadores visivelmente emocionados e o próprio homenageado não conteve as lágrimas.
Ciça teve participação central na construção do espetáculo. Submeteu-se a uma verdadeira maratona: atuou como regente da bateria - função que o consagrou no carnaval -, integrou o desenvolvimento do enredo, participou da apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira e também compôs a comissão de frente. A escola estruturou o desfile de modo a reforçar o protagonismo do diretor de bateria na narrativa.
Mocidade Independente de Padre Miguel
Primeira a desfilar, a Mocidade apresentou enredo em homenagem à cantora Rita Lee. O carnaval foi desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, que construiu uma proposta de leitura direta e de forte apelo popular.
O desenvolvimento do enredo foi o principal ponto positivo da escola. Fantasias e alegorias permitiram compreensão clara da narrativa proposta, com referências facilmente identificáveis pelo público. No entanto, o conjunto estético não alcançou o mesmo impacto observado em outras apresentações da noite, especialmente Beija-Flor e Viradouro.
O samba-enredo, que já vinha sendo questionado no período pré-carnaval, não teve força suficiente para impulsionar uma evolução de excelência. O desfile também marcou a estreia de Igor Vianna como intérprete oficial da escola. Filho de Ney Vianna, considerado o mais emblemático puxador da história da Mocidade e falecido em 1989, Igor assumiu o microfone em uma apresentação marcada pela simbologia da sucessão.
Beija-Flor de Nilópolis
A Beija-Flor apresentou desfile tecnicamente consistente e visualmente impactante para contar a história do Bembé, grande encontro de casas de candomblé em Santo Amaro da Bahia. A escola demonstrou organização, acabamento refinado e segurança na execução do projeto carnavalesco.
O conjunto estético, elaborado pelo carnavalesco João Vitor Araújo, foi um dos destaques da noite. Alegorias grandiosas, fantasias bem acabadas e evolução segura reforçaram a competitividade da agremiação, que se coloca entre as postulantes às primeiras posições na classificação final.
A Beija-Flor, depois de 50 anos, não teve Neguinho com o microfone. A missão coube à dupla Nino do Milênio e Jéssica Martin.
Viradouro
A Viradouro levou para a avenida o carnaval desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. A proposta foi estruturada em torno da trajetória de Ciça, transformando o diretor de bateria no centro da narrativa.
A escola combinou emoção e organização técnica. A bateria manteve regularidade e precisão sob comando do homenageado, cujo apito exerceu papel decisivo na condução rítmica do desfile. A construção visual, aliada à força simbólica do enredo, resultou em apresentação de alto impacto.
A Viradouro encerrou sua participação com um desempenho que deixa os integrantes da escola quase que com a certeza da conquista do título.
Unidos da Tijuca
Encerrando a noite, a Unidos da Tijuca homenageou a escritora Carolina Maria de Jesus. Sob direção do carnavalesco Edson Pereira, a escola adotou proposta estética distinta dos últimos anos, com predominância de materiais e soluções rústicas.
A intenção foi recriar o ambiente retratado na obra da autora, marcado por pobreza, exclusão social e resistência. A crítica social permeou todo o desenvolvimento do enredo, com ênfase na fome, na falta de moradia e nas barreiras enfrentadas por uma mulher negra no mercado literário.
No aspecto técnico, a Tijuca apresentou boa harmonia e evolução equilibrada. A disputa pelo título e pelas vagas no desfile das campeãs se desenha acirrada após a segunda noite de apresentações.
*Jornalista com 30 anos de cobertura carnavalesca