Só Carioquices: Trinta anos depois, no mesmo lugar, com a minha gente

Por Fred Soares

Fred Soares completa neste 2026 30 anos de cobertura jornalística e inicia sua colaboração com o Correio da Manhã

No carnaval, que começa nesta sexta-feira (13), completo 30 anos de cobertura de desfiles de escolas de samba. Não é apenas uma marca profissional. É uma travessia pessoal. 

Essa história começa bem antes do jornalismo, em 1982, quando um menino de família nordestina, distante do carnaval, foi praticamente sequestrado por um tio funcionário da Riotur e levado para ver um desfile. Sem entender direito o que acontecia, fui capturado.

Encanto imediato, desses que não pedem explicação. O tempo passou. O fascínio infantil virou curiosidade, depois presença constante em ensaios, quadras e conversas atravessadas pela madrugada. Aos poucos, compreendi que aquilo não era só festa, mas um sistema complexo de criação, memória, disputa e afeto.
Entendi que a escola de samba não era um detalhe meramente folclórico, mas um dos pilares da identidade carioca no século XX.

Quando cheguei ao jornalismo, no fim de 1995, ainda na faculdade de Comunicação Social, esse entendimento ganhou forma. Em 1996, no antigo Jornal dos Sports, fiz minha primeira cobertura oficial de carnaval. Já não era o auge daquele espaço dedicado às escolas, mas era herdeiro de uma tradição simbólica: o primeiro desfile de escolas de samba, ainda não oficial, em 1932, foi patrocinado por um jornal, o Mundo Sportivo, de Mário Filho, fundador do próprio Jornal dos Sports.

Ali compreendi algo definitivo. Aquilo não era só paixão, nem apenas trabalho. Era missão. Mostrar à minha gente, dentro das plataformas que eu tivesse - jornal, rádio, internet, televisão - a real importância das escolas de samba na vida da cidade. Seu papel histórico, social e cultural. Sua força como expressão popular sofisticada. 

É também por isso que esta edição de fim de semana do #CM2, no tradicional Correio da Manhã, tem um significado especial pra mim. A oportunidade de voltar a escrever sobre carnaval e desfile de escolas
de samba para um jornal impresso foi generosamente oferecida por seu editor, Affonso Nunes, a quem registro meu agradecimento.

Essa caminhada não foi solitária. Devo muito a quem ensinou, abriu portas, dividiu conhecimento e generosidade: Tarcio Santos, Eucimar de Oliveira, Anderson Baltar, Chico Frota, Fernando Pamplona, José Carlos Rêgo, Dulce Alves, João Carlos Filho, Ralph Guichard, Lina Marques, Marcus Vinícius, Marcos Frederico, Luiz Ribeiro, Marcos Vinícius, Eugênio Leal. Nomes que fazem parte não só da minha formação, mas da própria história do carnaval contada com seriedade e paixão.

Trinta anos depois, com tecnologias que mudaram tudo sem mudar o essencial, continuo tentando traduzir em palavras, sons e imagens o que nasce na comunidade e explode na avenida. Talvez por isso eu já não consiga separar completamente quem eu sou do que eu cubro. A escola de samba deixou de ser apenas parte da minha vida. Misturou-se a mim. É corpo, memória, espírito.

E será assim até o último respiro. Porque acompanhar escolas de samba nunca foi só cobrir desfiles. Sempre foi contar, ano após ano, a história de um povo que aprendeu a transformar a existência - muitas vezes negada - em beleza. E isso, para um jornalista, é mais do que profissão. É destino.