A voz dos anônimos que fazem o samba pulsar
'Eu sou do Samba' reúne contos sobre mestres-salas, ritmistas e passistas que constroem o carnaval carioca longe dos holofotes
Reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, o samba ganha homenagem literária que mergulha nas histórias de quem constrói, com suor e talento, o espetáculo das escolas de samba. "Eu Sou do Samba", de José Leonídio Pereira, reúne contos e crônicas sobre vozes anônimas — mestres-salas, porta-bandeiras, ritmistas, compositores, passistas, carnavalescos — que mantêm vivo o espírito do carnaval carioca.
Musicalidade e emoção atravessam cada página da obra - publicada pela Autografia, com apresentação do escritor e ensaísta Ivan Proença. Neste testemunho da força dessa manifestação cultural do Rio e do Brasil, o autor constrói um retrato íntimo deste país que canta, dança e resiste. Para Proença, a obra é como uma viagem pela essência do samba. "As narrativas revelam que, por mais que se transfigure o carnaval em nome do progresso, sempre haverá o improviso criativo, o compositor fiel ao seu ofício, a velha guarda benditamente ranzinza e o sambista do pé", destaca.
Segundo ele, Leonídio contempla tanto a visão moderna do esplendor carnavalesco quanto as cenas e personagens épicos e líricos que habitam os bastidores das escolas. "Muito se aprende aqui sobre as estruturas e o cotidiano de uma escola de samba. Há didatismo, há africanismos, há fraternidade. Porque se discutirmos identidade cultural brasileira, inevitavelmente estaremos falando de samba. Afinal, nós somos o samba", reforça.
O livro é dedicado à memória de Luís Fernando Vieira, pesquisador e escritor que colocou sua vida à disposição da cultura popular brasileira. Leonídio homenageia o amigo com gratidão e afeto.
Entre lembranças e afetos, José Leonídio traz também passagens simbólicas, como o encontro no Jongo da Serrinha, herança viva do Quilombo de São José, onde o samba e a ancestralidade se unem em celebração. Os personagens representam suas origens em bairros cariocas do subúrbio: Madureira, Serrinha, Cavalcanti, Padre Miguel, Tijuca e Mangueira. O autor se coloca como um desses anônimos, alguém que vive o samba de dentro, com o coração marcado no compasso do surdo. "O coração é meu surdo — Tum-Tá, o som da minha vida. Mas a primeira marcação que ouvi foi o coração da minha mãe vibrando no ritmo do surdo... Sou o surdo rei da minha escola", emociona-se.
José Leonídio Pereira é escritor com oito livros já lançados, além de contos e crônicas em antologias e publicações diversas, professor e médico. Deu seus primeiros passos nas letras com enredos para a Escola de Samba Em Cima da Hora e colaborou com outras escolas de samba e blocos. Entre suas obras está "Enredando ilusões", coletânea de sinopses de enredos apresentados desde 1984 que deram origem a sambas de enredo, e "Safiras de Candinho", que tem como cenário Cavalcanti, bairro carioca onde nasceu e berço da Em Cima da Hora. Carioca, estuda há mais de 20 anos a diversidade da Guanabara e é amante da música popular brasileira, principalmente samba de raiz, de enredo e pagode.
