Carnaval 2026 | Unidos da Tijuca: Escrita que liberta
A Unidos da Tijuca é a última escola da segunda-feira e entra na avenida com um enredo forte, resiliente e libertador. "Carolina Maria de Jesus" conta a trajetória de uma das mais notáveis escritoras brasileiras, mulher negra e periférica que transformou palavra em sobrevivência, denúncia em literatura e fez de sua vida um legado.
O enredo assinado pelo carnavalesco Edson Pereira, resgata essa trajetória marcada por exclusão, racismo e resistência. A atriz Cyda Moreno, que já interpretou Carolina no teatro durante seis anos consecutivos com o espetáculo "Eu Amarelo, Carolina Maria de Jesus", agora leva a escritora ao maior palco a céu aberto do mundo. "Ela é um exemplo de força, resistência e superação do racismo, da miséria e da exclusão. O desfile exaltará as mulheres negras, centenas de 'Carolinas' que lutam contra a fome, por respeito, por dignidade e pelos direitos de cidadãs", afirma a atriz.
Antes de ser conhecida pelo mundo, Carolina Maria era chamada de Bitita, que significa "de cor preta" na língua changana de Moçambique. Essa menina negra nasceu no interior de Minas Gerais, num Brasil ainda marcado pelas feridas da escravidão recém-abolida. Cresceu nos confins do cerrado mineiro, num cenário colorido por marafantonas e congados, onde aprendeu com seu avô Benedito os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir. Nas barras das saias da mãe, tias e madrinhas, se entrelaçou ao poder das coisas ditas, ao espírito desconhecido das letras e palavras que desejava conhecer. Bitita deu lugar à Carolina quando esta aprendeu que, para existir aos olhos do mundo, era preciso ter um nome, uma assinatura.
Os caminhos e descaminhos da vida a levaram para São Paulo. Sem emprego fixo na metroóle, foi morar na favela do Canindé. Para sobreviver, catava papel, ferro e restos pelas ruas. Também catava histórias. Nos cadernos em branco que encontrava no lixo, escrevia sobre a fome, a miséria, o racismo, a violência e o cotidiano da favela.
Assim que nasceu "Quarto de Despejo", livro que revelou ao Brasil uma realidade que muitos fingiam não ver. Carolina virou conhecida como "a favelada que escrevia". Sua obra incomodou porque denunciava políticos, expunha desigualdades e desmontava a imagem romantizada da pobreza. Em dramática retórica, reivindicava também o seu espaço no circo social, denunciando o palco que foi negado para as tantas peças que escreveu. Desconstruiu a romântica favela dos sambas de época e publicou o desejo maior dos desabrigados: a Casa de Alvenaria, símbolo do pertencimento à cidade.
O sucesso, porém, veio com limites. Esperavam que Carolina falasse apenas da favela e da miséria. Quando tentou ir além, escrever outras histórias, peças e poemas, foi deixada de lado. A ousadia de contrapor a estrutura, de transpor as barreiras a colocaram da porta para fora.
Mesmo assim, Carolina permaneceu e sua escrita resistiu ao apagamento e continuou viva nas páginas, nas memórias e nas inspirações que deixou. Sua gramática das ruas, mistura refinada do pretuguês com as catedráticas orações e rimas, deu forma e entendimento à gigantesca babel de cultura que somos, desafiando o preconceito da língua, da classe e da cor. É essa trajetória que a Unidos da Tijuca celebra com nome e sobrenome.