Vila Isabel nas cores de Heitor dos Prazeres

Azul e branco vai tingir a Sapucaí com o legado do compositor e pintor que levou a carioquice às suas telas e canções

Por Rafael Lima

Imagem do ensaio técnico da Vila Isabel na Sapucaí: desfile vai focar na relação da obra de Heitor dos Prazeres com a africanidade

Azul e branco vai tingir a Sapucaí com o legado do compositor e pintor que levou a carioquice às suas telas e canções

A Unidos de Vila Isabel aposta em um desfile de forte identidade estética, ancestral e poética para o Carnaval de 2026. Com o enredo "Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África", a escola propõe uma imersão no universo criativo de Heitor dos Prazeres, sambista, pintor, compositor e um dos grandes nomes da cultura popular brasileira.

Desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, o enredo não segue uma linha biográfica tradicional. A proposta é costurar sonhos, memórias, imagens e símbolos que atravessam a obra de Heitor, conectando a Pequena África carioca a uma África sonhada, reinventada e celebrada como território espiritual, artístico e comunitário.

Heitor dos Prazeres foi um artista múltiplo, com atuação marcante na música, nas artes visuais, no figurino, na cenografia e no próprio surgimento das escolas de samba. Sua obra remete ao cotidiano do Rio de Janeiro negro, com os terreiros, os quintais, as rodas de samba e os espaços onde a cultura afro-brasileira floresceu.

Segundo Gabriel Haddad, transformar esse universo multifacetado em desfile foi um dos grandes desafios criativos do projeto. "Foi muito interessante pensar o trabalho relacionado a um multiartista como o Heitor dos Prazeres, que atuava nas artes visuais, na música, na literatura, na marcenaria, na costura e, claro, como sambista. Como reunir todas essas referências em alas, alegorias e no próprio samba-enredo foi uma grande construção", explica.

Divulgação - Gabriel Haddad e Leonardo Bora, a dupla de carnavalescos da Vila Isabel

Ao Correio da Manhã, Gabriel destaca que a escola buscou inspiração na obra, sem reproduzi-la literalmente. "A ideia nunca foi copiar ou refazer as telas do Heitor na Avenida, mas retirar referências, imagens poéticas, as cores, as formas dos personagens e levar isso para o nosso desfile. A gente observou muito as estamparias presentes na obra dele, a paleta de cores e a maneira como ele representava o cotidiano", completa.

Um dos eixos centrais do enredo é a relação entre samba e macumba, tema recorrente tanto na obra quanto no pensamento de Heitor dos Prazeres. Para Haddad, essa conexão atravessa a visualidade e o conceito do desfile. "O que ele falava sobre a criação do samba, sobre a relação do samba com a macumba, é um dos motores do nosso enredo. Ele pintava essa macumba urbana, essa macumba carioca, presente nas salas, nos quartos, no cotidiano das casas", afirma.

Elementos simbólicos desse universo estarão presentes nas fantasias e alegorias, como pisos de taco, instrumentos musicais que dialogam com o samba e com os rituais, pontos riscados, estrelas, velas e referências diretas aos terreiros e às práticas religiosas afro-brasileiras. A proposta é transformar a Avenida em uma grande tela viva, onde fé, arte e música se confundem e se complementam.

A perspectiva das telas e a sensação de profundidade visual também são conceitos explorados pelos carnavalescos. A ideia é transportar para o espaço cênico da Sapucaí a sensação de estar dentro das pinturas de Heitor, com personagens, ambientes e cores criando camadas de leitura e emoção para o público.

Outro ponto central do enredo é a conexão Brasil-África, construída a partir de um episódio histórico pouco conhecido. Heitor dos Prazeres foi um dos artistas escolhidos para representar o Brasil no primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, no Senegal, em 1966.

"A relação África-Brasil se dá no nosso enredo por conta da participação do Heitor nesse festival. Ele foi pessoalmente, expôs obras e também foi representado por um documentário. E a própria Vila Isabel também esteve presente nesse momento histórico, representada pelo documentário Nossa Escola de Samba, que mostrava a ascensão da escola até o Grupo Especial", revela Gabriel.

Esse encontro simbólico entre Heitor dos Prazeres e a Vila Isabel em solo africano é tratado como um marco narrativo do desfile. As últimas alegorias devem representar essa união histórica, trazendo referências às peças, esculturas e exposições do festival de Dakar, conectando o carnaval carioca ao continente africano em uma celebração da diáspora, da ancestralidade e da força cultural negra.