Fred Soares: Uma inversão carnavalesca

Por só carioquices

O povo precisa voltar aos desfiles na Marquês de Sapucaí

O carnaval carrega, desde sua origem, a marca da disrupção. É a festa que nasce para virar o mundo de cabeça para baixo, para embaralhar hierarquias, suspender regras e permitir que o povo ocupe, com corpo, voz e alegria, aquilo que lhe é negado durante o resto do ano. O carnaval é, por essência, um ritual de inversão.

Talvez por isso os ensaios técnicos do Grupo Especial tenham se transformado num espelho tão revelador - e incômodo - do que o carnaval deveria ser. Na primeira rodada deste fim de semana, a Marquês de Sapucaí estava exatamente como se espera de uma avenida carnavalesca: cheia, vibrante, democrática, participativa, pulsando vida e energia.

Um espaço de reencontro das escolas com seu povo e, mais profundamente, com seu terreiro simbólico. Porque a Sapucaí não é só passarela, é chão sagrado.

Essa cena é bonita. É potente. Mas também denuncia uma contradição. A atmosfera que deveria dominar os dias oficiais de desfile aparece hoje com mais força neste pré-carnaval que virou mais uma peculiaridade carioca. O ensaio técnico se transformou no momento em que o povo consegue estar.

Isso é bom? Evidente que sim. O carnaval precisa dessa energia para existir. Mas isso também é ruim. Ruim porque escancara um processo longo de elitização que não começou agora, nem pode ser atribuído apenas à atual gestão da Liesa.

Trata-se de um movimento de pelo menos três décadas, marcado sobretudo pelo encarecimento progressivo dos ingressos, muito além da capacidade de quem vive de salário mínimo.

Hoje convivemos com supercamarotes vendidos a preços estratosféricos. Ingressos de R$ 3 mil para um único dia de desfile, ainda que com open bar e open food. Enquanto isso, uma arquibancada custa cerca de R$ 250. Em tese, alguém poderia assistir aos três dias gastando R$ 750. No mercado de grandes eventos, talvez não seja um valor absurdo. Um show de grande porte pode custar isso. Mas o carnaval não é um show qualquer.

É uma festa criada por gente pobre, sustentada culturalmente por comunidades inteiras e cujo sentido histórico é, justamente, o acesso popular.

É verdade que há ingressos gratuitos e populares destinados às comunidades das escolas. Mas isso ainda é pouco. Se queremos uma avenida quente, viva e cheia de energia como a que vimos nos ensaios técnicos, é preciso ir além.

Talvez seja hora de os órgãos públicos de cultura - ministérios, secretarias estaduais e municipais - atuarem junto aos organizadores. E por que não envolver também os patrocinadores, que hoje surgem em profusão graças ao bom trabalho comercial da Liesa? O subsídio de ingressos populares pode ser uma dessas ações.

O carnaval já mostrou, nos ensaios, o que ele ainda pode ser no contexto do Rio de Janeiro. Falta fazer com que isso volte a acontecer quando realmente importa.