Carolina Maria de Jesus para encantara avenida
Após sucesso em novela, Cyda Moreno será destaque da Unidos da Tijuca representando a escritora que transformou a fome em literatura
Após sucesso em novela, Cyda Moreno será destaque da Unidos da Tijuca representando a escritora que transformou a fome em literatura
Entre a "Vó Yara" de "Dona de Mim" e Carolina Maria de Jesus, Cyda Moreno encontrou um território comum: dar corpo e voz a mulheres negras que transformaram adversidades em força. Depois de viver a matriarca carismática na novela da TV Globo, a atriz se prepara para brilhar na Marquês de Sapucaí como destaque da Unidos da Tijuca, que homenageia a escritora mineira que tornou visível a fome e a miséria das favelas brasileiras na década de 1960.
Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento (MG) em 1914 e migrou para São Paulo, onde viveu na favela do Canindé. Catadora de papel, mãe solo de três filhos, registrava seu cotidiano em cadernos encontrados no lixo. Suas anotações chegaram ao jornalista Audálio Dantas em 1958, que reconheceu ali um relato literário sem precedentes na cultura brasileira. "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada", lançado em 1960, vendeu 10 mil exemplares na primeira semana e foi traduzido para mais de 13 idiomas, tornando-se um dos livros brasileiros mais lidos no exterior.
O enredo da Unidos da Tijuca, assinado pelo carnavalesco Edson Pereira, resgata essa trajetória marcada por exclusão, racismo e resistência. Cyda, que já interpretou Carolina no teatro durante seis anos consecutivos com o espetáculo "Eu Amarelo, Carolina Maria de Jesus", agora leva a escritora ao maior palco a céu aberto do mundo. "Ela é um exemplo de força, resistência e superação do racismo, da miséria e da exclusão. O desfile exaltará as mulheres negras, centenas de 'Carolinas' que lutam contra a fome, por respeito, por dignidade e pelos direitos de cidadãs", afirma a atriz.
A montagem teatral estreou no Rio em 2018 e percorreu cidades do Sudeste e Nordeste, apresentando ao público a escritora que, apesar do sucesso inicial, morreu em 1977 esquecida e em situação precária. A redescoberta de Carolina nas últimas décadas tem revelado uma obra que vai além do livro que a projetou: ela publicou romances, poesia e outros diários, consolidando-se como uma das vozes mais importantes da literatura brasileira do século 20.
No desfile da Unidos da Tijuca, Cyda estará no terceiro carro alegórico representando a favela e a obra que expôs as entranhas da desigualdade brasileira. "Vou atuar como a Carolina mais velha, revendo sua história. O livro é um retrato contundente da miséria e de quem passa fome no Brasil, situação que atinge diretamente as comunidades negras e periféricas em nosso país até os dias de hoje", destaca a atriz.
Para Cyda, que acredita no desfile como um ato político e necessário, Carolina ainda é pouco conhecida no Brasil, principalmente pela população negra que se reconheceria em sua trajetória. A escritora transformou sua realidade periférica e sua luta contra a fome em literatura que atravessou fronteiras geográficas e temporais, tornando-se referência nos estudos sobre raça, classe e gênero.
A Unidos da Tijuca desfilará na segunda-feira de carnaval, e a escolha de Carolina como enredo reafirma a importância do carnaval como espaço de memória e reivindicação. Ao levar para a avenida uma mulher que escreveu sobre fome em um país que ainda convive com a insegurança alimentar, a escola cumpre o papel histórico das agremiações carnavalescas de refletir criticamente sobre a sociedade brasileira.
