O legado de Mercedes Baptista no carnaval carioca

Primeira bailarina negra da história do Theatro Municipal foi quem introduziu as técnicas de balé na evolução da comissão de Frente do Salgueiro em 1963

Por Affonso Nunes

Artista do Theatro Municipal, Anderson Dionísio atua na Mangueira há 20 anos

Quem acompanha o desfile das escolas de samba sabe da presença de coreógrafos, bailarinos, figurinistas e técnicos das artes cênicas nos barracões das escolas. Mas como isso começou? Foi através de Mercedes Baptista. A primeira bailarina negra do Theatro Municipal foi quem  levou a técnica do balé para o carnaval em 1963, quando assinou a Comissão de Frente do Salgueiro. Sessenta anos depois, sua influência permanece viva: artistas do Municipal estão presentes em pelo menos sete das 12 escolas do Grupo Especial, atuando em comissões de frente, na direção artística de Mestre-Sala e Porta-Bandeira ou na ala dos passistas.

Filha de um ferroviário e de uma empregada doméstica, Mercedes nasceu em Campos dos Goytacazes em 1921 e enfrentou o racismo estrutural para conquistar seu espaço na dança. Em 1948, tornou-se a primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Municipal. Nos anos 1950, estudou com a coreógrafa Katherine Dunham nos Estados Unidos e desenvolveu uma linguagem que mesclava o balé clássico às matrizes afro-brasileiras, influenciando gerações de artistas.

A fusão entre o erudito e o popular tornou-se um dos momentos mais aguardados dos desfiles. Na Sapucaí, as coreografias eletrizam o público, levando ao delírio torcedores nas arquibancadas. No samba ou no balé, o entusiasmo se repete. Edifranc Alves, primeiro solista do Municipal, sabe bem disso. Em 2025, ele completa 20 anos de Carnaval e assina, ao lado de Claudia Mota, a Comissão de Frente da Paraíso do Tuiuti. "São experiências muito diferentes e apaixonantes. No Municipal, há a formalidade da plateia. No Carnaval, o espetáculo é para o mundo inteiro, com arquibancadas lotadas e notas em jogo. São sensações distintas, mas igualmente fascinantes", afirma Edifranc, que já passou por escolas como Tradição, Salgueiro, Unidos da Tijuca e Grande Rio desde 2005.

Essa tradição remonta aos anos 1960, quando o Salgueiro conquistou o título com o enredo "Chica da Silva" e Mercedes Baptista introduziu o minueto à Comissão de Frente. Desde então, profissionais do Municipal têm levado sua arte ao samba. Anderson Dionísio, bailarino do Municipal e há duas décadas integrante da Mangueira, mantém essa ponte entre os universos. Criado em Madureira, ele também leciona na Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira Mestre Manoel Dionísio. "Agradeço às forças que transitam entre o samba e o balé. Entre realidades e possibilidades, construí minha trajetória artística e acadêmica", diz Anderson.

A presença do Municipal no carnaval se estende por diversas escolas. Hélio Bejani está na Grande Rio; Priscilla Mota e Rodrigo Negri, na Viradouro; Jorge Teixeira e Saulo Finelon, na Beija-Flor; Karina Dias, na Mangueira; Marcelo Misailidis, na Mocidade. Ana Botafogo, por sua vez, assina a direção artística do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Imperatriz.

"São grandes artistas que unem profissionalismo e paixão na maior festa popular do país. Essa parceria, iniciada por Mercedes Baptista antes mesmo da Sapucaí, segue enriquecendo o Carnaval e também a programação do Municipal", comenta Clara Paulino, presidente do Theatro Municipal do Rio.