O povo está tomando o futebol de volta pra si

Por SÓ CARIOQUICES

HMais uma Copa do Mundo bate às portas das nossas vidas, e tem uma coisa no ar que eu não sei nomear. Uma espécie de aura. Dessas que a gente sente na pele antes de entender com a cabeça. E não vou tentar explicar. Tem coisa que morre no instante em que a gente exige que ela se explique. É como tentar dizer por que a voz da sua mãe acalma. Não se diz. Se sente.

Ninguém sabe se o Brasil vai ganhar. E o ponto é esse: não importa. Não é o placar que está em jogo. São as pessoas, voltando a ocupar a rua com aquela cara que andava guardada na gaveta. Desde 2014 eu não via a cidade respirar assim. O Rio tá mais bonito. Escrevo daqui, mas isso não é privilégio de carioca. O Rio só tem a mania de gritar o que os outros sussurram.

O mundo mudou. A tela pequena tomou conta da vida e a gente foi se mudando pra dentro, cada um sozinho no meio de uma multidão de notificações. Mas tem uma coisa que nunca saiu do carioca. Ficou quietinha num canto do peito, esperando. E o que estava esperando, chegou.

O povo está fazendo um gesto que talvez nem perceba: está tomando o futebol de volta pra si, como quem recupera um objeto roubado. O futebol chegou ao Brasil como brinquedo de elite, coisa de terno e clube fechado. O povo olhou e viu que aquilo era a sua cara. O terno virou chinelo, o gramado virou várzea, laje, rua de terra. Mário Filho escreveu um livro inteiro sobre isso. Não foi à toa que botaram o nome dele no Maracanã.

E há anos um processo horrendo tenta desfazer tudo: o ingresso que ninguém paga, a camisa que custa uma semana de salário, o futebol embrulhado em celofane, vendido como artigo de luxo. É contra isso, sem manifesto, que a cidade reage: com bandeirinha de papel crepom de poste a poste, com o verde e amarelo subindo pela fachada, com a criança correndo na tinta fresca do asfalto. É bonito demais.

Preciso confessar: eu não assisto de longe. Eu vivi. Minha primeira Copa foi a de 82. Eu tinha oito anos e vi, dentro do estádio, o Brasil entrar em campo. Aquele time encantou o mundo e foi embora cedo, do jeito mais cruel. E é dele que eu mais lembro. Não do que ergueu taça, mas do que me partiu o coração e me ensinou que beleza e dor às vezes vestem a mesma camisa amarela.

Você que beira os cinquenta: quando lê isso, não desaba um carrossel de lembranças? Seu pai gritando gol e te erguendo no ar. O rádio de pilha do seu avô. A vó enxugando o canto do olho fingindo que não torcia. Tá tudo aí dentro, intacto. Eu sei que está. Porque está dentro de mim também.

E você, menino, moça de quinze anos: não dá uma vontade danada de descer pra rua, pintar o asfalto, gritar até a voz sumir, criar sua própria lembrança pra contar daqui a quarenta anos? Essa vontade já é o sentimento batendo na porta. Pode abrir. É herança, e a herança é sua. Sempre foi.

Pra fechar o ciclo, encomendei uma réplica da camisa de 82. O mesmo amarelo, o mesmo escudo com a Jules Rimet no peito. Vou assistir à Copa de 2026 costurando duas pontas que pareciam perdidas: o menino que eu fui e o homem que ficou. Não vai ser igual. Mas não é a intensidade que eu procuro. É a essência. E ela continua onde sempre esteve: à minha espera, do tamanho de um menino gordinho de oito anos vestido de amarelo.