As ruas do Rio: em tempos de Copa, o gigante despertou

Por SÓ CARIOQUICES

Tem muito carioca que talvez ainda não tenha percebido, mas uma coisa bonita começou a acontecer de novo na cidade. Quase sem alarde, como quem reaprende um velho samba depois de anos sem cantar, algumas ruas do Rio voltaram a se enfeitar para a Copa do Mundo. E isso, para além do futebol, diz muito sobre nós. Há algumas semanas, escrevi aqui sobre o desaparecimento gradual dessas ruas fantasiadas de verde e amarelo, dessas bandeirinhas atravessando o céu como se o bairro inteiro resolvesse jogar junto. O Rio parecia ter desaprendido um dos seus gestos mais característicos: transformar a rua em quintal coletivo, arquibancada afetiva, espaço natural de convivência.

Pois elas começam a voltar.

Na Tijuca, por exemplo, a tradicional Pereira Nunes anunciou novamente seus enfeites. A Alzira Brandão também. E não faz qualquer decoração: promove o célebre Alzirão, mistura de vizinhança, cerveja, batuque, memória e bola rolando na telão. É o Rio em estado bruto.

Neste ano, o Alzirão terá patrocínio de uma grande empresa de apostas. Sinal dos tempos. Muito provavelmente veremos uma festa mais profissionalizada, talvez mais "evento" do que propriamente rua. O Rio contemporâneo parece ter transformado tudo em produto e ativação de marca. A cidade vive uma espécie de "eventilização" permanente da vida cotidiana.

É uma pena, em certa medida. Mas talvez seja também o preço que os tempos cobram para que certas tradições sobrevivam.

E, sinceramente, melhor isso do que o silêncio cinza dos últimos anos.

Porque rua enfeitada em Copa nunca foi só decoração. É patrimônio afetivo. É manifestação cultural urbana. É o povo reivindicando o direito de celebrar junto, de ocupar a cidade não pela lógica do medo, mas pela lógica do encontro, da sociabilidade.

As bandeirinhas penduradas, o chão pintado das ruas. Tudo isso não é apenas ornamento - é anúncio de pertencimento.

Por isso me chamou atenção também a iniciativa do Instituto Imperatriz, ligado à escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Na região da Leopoldina, eles lançaram um concurso para premiar financeiramente as ruas mais bem decoradas para a Copa. Durante décadas, isso foi parte do cotidiano carioca: gente pintando chão, improvisando arte, discutindo futebol e vida rolando no meio da calçada. Era a rua deixando de ser passagem e passando a ser espaço de convivência.

Tomara que essa Copa de 2026 marque um reinício. Não apenas dos enfeites, mas da recuperação de uma certa alma coletiva da cidade. O Rio precisa reaprender a pertencer a si mesmo, a sua gente.

E isso ganha ainda mais importância porque, no ano que vem, teremos a Copa do Mundo Feminina no Brasil, com o Rio como uma das sedes. Será uma oportunidade enorme para ampliar essa cultura de rua, apesar da resistência ainda absurda que parte das pessoas insiste em ter contra o futebol feminino.

Que os enfeites deste ano atravessem também o próximo. Porque uma cidade que enfeita suas ruas para ver futebol não está apenas esperando um jogo. Está tentando, ainda que por alguns dias, voltar a sonhar em comunidade.