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Paisagem, memória e os imaginários

Fábrica Bhering recebe a primeira individual do fotógrafo Douglas Lopes realizada fora do Complexo da Maré

Por Affonso Nunes

Dois de Janeiro

Douglas Lopes imprime em tecido fotografias de corpos em movimento e pendura cada uma por cabos de aço. São 13 imagens de alunos do Núcleo de Formação em Dança do Centro de Arte da Maré que, sobrepostas, formam "Círculo de fogo" (2026), instalação inédita em cartaz na Fábrica Bhering, no Santo Cristo. "Gosto de brincar com o fogo e da conexão entre a luz do fogo e a fotografia", conta Lopes, para quem "Entre a favela, o inferno e o céu" é a primeira individual fora do Complexo da Maré, onde nasceu, vive e trabalha.

Com curadoria de Vinicius Mesquita, a mostra reúne séries de uma pesquisa que Lopes desenvolve desde 2013. Em sua fotografia, os moradores de comunidades não são objeto de observação, mas protagonistas de suas próprias histórias. A exposição integra um projeto contemplado pelo Programa de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental (Pista), da Faperj, que concede ao fotógrafo bolsa de dois anos e prevê livro e o relançamento da plataforma digital, rebatizada Estúdio Maré.

Em "Dois de janeiro" (2018), panorama de 36 x 110 centímetros, um arco-íris duplo registrado no mesmo 2 de janeiro, em dois anos consecutivos, liga visualmente duas comunidades sob controle de grupos rivais. Em "Nas águas desta baía há muito tempo" (2024), título de livro de Nei Lopes, o preto e branco registra o antigo Pier Maria Angu, na Favela da Kelson, que já foi próspero e segue como ponto de pesca e lazer apesar da poluição. "Itaparica e Vera Cruz" (2022) amplia a pesquisa para além do Rio, com 400 x 60 centímetros sobre a Baía de Todos-os-Santos, palco da Batalha de Itaparica, de 1823.

"Yaya" (2016) empilha caixotes de plástico azul e laranja do Ceasa, com a palavra Yaya na lateral — a repetição cria unidade escultórica. No tríptico "Tudo que habita é luz" (2025), paisagens de favelas se dispõem em composição vertical; ao centro, um menino leva o bastão do Reisado do Maracatu. E "Beleza extraordinária" (2021) registra uma rua antes movimentada, hoje deserta, com lixo acumulado — Lopes destrincha texturas e contrastes a partir do ordinário: aves, nuvens, luz, asfalto e resíduos.

Fora das artes visuais, Lopes assinou a direção de fotografia da série "Marielle - O Documentário" (Globoplay) e do curta "Unifavela - o ENEM, a favela e o Coronavírus", vencedor do Prêmio ABMES. Em 2023, foi um dos dois brasileiros indicados ao MAST Photography Grant on Industry and Work, em Bolonha, escolhido por Sergio Burgi, do Instituto Moreira Salles, e Tatiana Altberg. Fotógrafo e professor na Lona Cultural da Maré entre 2013 e 2017, integrou o jornal comunitário Maré de Notícias e trabalha desde 2013 com a Redes da Maré.

SERVIÇO

ENTRE A FAVELA, O INFERNO E O CÉU

Fábrica Bhering (Rua Orestes, 28, 5º andar, Santo Cristo)

Ate 18/2/2027, de segunda a sábado (9h às 18h) |Grátis