Acordes imagéticos
Leo Gandelman, que completa 70 anos, revela em exposição imagens em P&B de sua época de fotógrafo profissional nos anos 1970
Em 1976, um carioca de 20 anos ficou em segundo lugar no Nikon International Photo Contest, uma das premiações mais relevantes da fotografia mundial. O nome dele é conhecido — mas não pelo que as lentes revelam. Cinco décadas depois, Leo Gandelman consolidou-se como um dos saxofonistas mais importantes da nossa música e a fotografia ficou guardada nos arquivos pessoais. Até agora.
Está em cartaz na Firjan Sesi Centro a exposição gratuita "50 x 70 - O olhar além da música", que reúne as imagens que Gandelman capturou durante os anos em que atuou como fotógrafo profissional e que comemora seus 70 anos, completados em agosto, e suas cinco décadas dedicadas à música.
Filho da pianista e professora Saloméa Gandelman, fundadora da Escola de Música Pró-Arte, e de um pai maestro, Gandelman cresceu entre partituras. Mas, muito antes de se tornar referência como instrumentista, compositor, arranjador e produtor, encontrou na imagem uma forma de observar e interpretar o mundo. A experimentação, lembra ele, foi decisiva para a sensibilidade que mais tarde marcaria sua obra musical.
Em 2021, auxiliei Gandelman num projeto para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e, nas conversas que se seguiram, ele revelou à equipe envolvida a paixão que as câmeras despertavam nele muito antes do reconhecimento no concurso - um tempo em que fotografar e tocar ocupavam lugares iguais em sua rotina.
Em cartaz até 30 de novembro, a exposição reúne registros que remontam à década de 1970, período do ápice de sua dedicação à fotografia. Contratado pela Editora Bloch, viajou pelo Brasil e pela América do Sul, sempre em busca do que chama de "momento único". Todo o trabalho está em preto e branco, e as imagens mostram um artista atento aos detalhes, às paisagens e aos instantes que passam despercebidos ao olhar cotidiano: passageiros a bordo de um vapor no rio São Francisco; a "Sala dos Milagres", na Igreja de Bom Jesus da Lapa; uma banda de música em parada do "Trem da Morte", que ligava Cuiabá a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia; e uma Maria Fumaça no percurso de Tiradentes a São João del-Rei — a mesma eternizada em "Ponta de Areia", de Milton Nascimento e Fernando Brant.
"Preencher espaços em branco com imagens, histórias e sentimentos foi fundamental para que eu compreendesse o processo de criação. A fotografia me ensinou a construir narrativas, e isso acabou se tornando uma das bases do meu trabalho como músico", afirma Gandelman.
As fotografias formam uma narrativa visual que dialoga diretamente com a musicalidade. É o músico pelo olho de quem fez dele fotógrafo — e o fotógrafo pelo ouvido de quem o fez músico.
SERVIÇO
LEO GANDELMAN 50 x 70 - O OLHAR ALÉM DA MÚSICA
Firjan Sesi Centro (Rua Graça Aranha, 1, Centro)
Até 30/11, segunda a sexta (10h às 18h, exceto feriados) e sábados e domingos (15h às 17h) | Grátis