De brinquedos a pterossauros

Além da ampla retrospectiva de sua obra, Vik Muniz criou 20 novos trabalhos especialmente para esta exposição no CCBB RJ

Por Affonso Nunes

Self-Portrait (I am too sad to tell you), after Bas Jan Ader

Depois de circular por Recife e Salvador em 2025, a maior retrospectiva sobre a obra de Vik Muniz chega ao Rio em versão ampliada. O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abre as portas para "Vik Muniz - A Olho Nu", uma exposição que ocupa o térreo e o primeiro andar da instituição com mais de 220 trabalhos criados entre 1987 e 2026. Vik Muniz é conhecido internacionalmente por criar imagens usando materiais inusitados, como açúcar, lixo, chocolate e confetes, frequentemente ligados ao sentido da obra.Suas obras, muitas vezes fotografadas após serem montadas, integram acervos de importantes museus ao redor do mundo.

A exposição tem curadoria de Daniel Rangel, que acompanha a trajetória artística de Muniz desde 1999. Segundo o curador, trata-se de um "passeio pela produção do artista, desde suas obras tridimensionais, criadas antes do uso da câmera fotográfica, até suas séries de fotos mais conhecidas e as mais recentes". O recorte apresentado inclui esculturas, objetos e mais de uma centena de fotografias nas quais o deslocamento de funções e a reconfiguração de objetos do mundo estão evidentes.

A versão carioca traz aproximadamente 20 trabalhos novos em relação às etapas anteriores, dos quais cinco foram criados pelo artista especialmente para esta mostra em 2026. Entre os inéditos estão as esculturas "O segredo", "Herói" (um conjunto com dez peças em mármore escuro que se assemelham a pinos de boliche) e "Dardos". Além disso, a exposição inclui seis novas séries que não estavam presentes em Recife e Salvador: "Principia" (1997-2002), "Verso" (2008/2012), "Veículos Mnemônicos" (2014/2026), "Museu de Cinzas" (2019/2026), "Colônias" (2014-2016) e "Os Arquivos de Weimar" (2004).

Um dos destaques visuais é a escultura "Ferrari Berlinetta" (2014/2026), da série "Veículos Mnemônicos", que será exibida pela primeira vez no Brasil. Vinda de Turim, na Itália, onde foi produzida, a obra tem mais de quatro metros de comprimento e pesa 650 quilos. Trata-se de uma reprodução em tamanho real de um carrinho Matchbox que Vik Muniz tinha na infância. Instalada em frente à bilheteria, no térreo, a escultura funciona como um convite ao público para compreender um dos eixos centrais da exposição: a transformação de objetos cotidianos e memórias pessoais em experiências monumentais.

Na Rotunda do CCBB, está suspenso "Tropeognathusmesembrinus" (2026), um gigante pterossauro feito de polímero infundido com cinzas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruído por um incêndio em 2018. Com 8,20 metros de envergadura e 2,55 metros de comprimento, a escultura pode ser vista também do segundo andar. Abaixo dela, um tapete redondo com dez metros de diâmetro estampa a imagem de "Medusa Marinara" (1997), obra em que o mito greco-romano foi desenhado com molho de tomate.

A série "Relicário" marca um ponto de virada na trajetória de Vik Muniz. Nela, o artista explora intencionalmente a ambiguidade das matérias-primas: o público tem suas expectativas subvertidas ao se deparar com objetos reconhecíveis produzidos com materiais inesperados. Essa relação paradoxal entre escultura e matéria confere às obras um forte caráter irônico e crítico. Foi a partir dessa série que a compreensão do objeto como imagem se consolidou na obra de Muniz, e o interesse do artista pela fotografia surgiu durante o processo de documentação dessas esculturas.

A série "Colônias" (2014-2016), desenvolvida durante uma residência no MIT, é uma colaboração entre Vik Muniz e o biólogo Tal Danino. As obras são produzidas a partir de células vivas, como células hepáticas e células-tronco, que são fotografadas por microscopia após crescimento controlado. Ao submeter sistemas biológicos intrinsecamente dinâmicos e imprevisíveis a esquemas formais predefinidos, a série aproxima o gesto artístico do método científico. A imagem final é resultado de uma negociação entre intenção e comportamento espontâneo da matéria.

"Verso" (2008/2012) envolveu pesquisa direta em acervos de instituições como Guggenheim, em Nova York, e Pinacoteca de São Paulo. Após fotografar a parte posterior de famosas obras de arte em museus, um time especializado de artesãos reproduziu à perfeição molduras, arranhões, manchas e etiquetas. Com essa série, Vik Muniz desloca o olhar para aquilo que permanece oculto: marcas do tempo, etiquetas, carimbos e vestígios de circulação institucional que narram a trajetória material da obra.

A série "Principia" (1997) investiga o estatuto da verdade associado à imagem fotográfica por meio de um visor estereoscópico acoplado — antigo equipamento que produz a ilusão de profundidade. O público vê fotografias que parecem documentar fenômenos complexos, como estruturas biológicas ou reações químicas. No entanto, uma observação mais atenta revela a natureza banal de seus componentes: aquilo que parece ser um composto orgânico sofisticado é, na verdade, uma batata furada por palitos. A série discute que ver não é necessariamente compreender.

"Os Arquivos de Weimar" (2004) é uma instalação que funciona como repositório de paranoia de todas as épocas e lugares. Nela, o artista mistura fotos de fotografias encontradas, fotos de documentos e fotos que ele mesmo produziu, cabendo ao público tentar identificar quais são as imagens reais e quais são as "de mentira". Vik Muniz iniciou esse inventário durante uma viagem à histórica cidade de Weimar, na Alemanha, berço do Classicismo Alemão e do movimento Bauhaus.

A série "Museu de Cinzas" (2019-2026) nasceu após o incêndio que destruiu o Museu Nacional, em 2018. O artista recria imagens de artefatos pertencentes à coleção da instituição utilizando cinzas recolhidas no local da tragédia e as fotografa em seguida. As obras apresentam, simultaneamente, o passado da imagem e sua materialidade atual. Além de "Tropeognathusmesembrinus", a série inclui "Museu Nacional" (2019), uma reconstituição da antiga fachada da instituição, e "Luzia" (2019), uma reconstituição do fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil.

Para esta mostra, foram restauradas as esculturas em bronze "Nuvem 1" e "Nuvem 2" (1997), da série "Primeiros Trabalhos", e a escultura "A coisa" (1989), da série "Relicário". O artista também recriou seis esculturas a partir de seus originais, além de produzir novas edições de outras três obras. A série "Primeiros Trabalhos" (1987/2026) marca o início da trajetória de Vik Muniz no campo das artes visuais, com influências ligadas à Pop Art, Minimalismo, Arte Povera, Happening, Fluxus e Op Art.

Vik Muniz nasceu em São Paulo em 1961, filho de pais imigrantes do Ceará e de Minas Gerais. Aos 22 anos, com apenas a passagem aérea e a determinação de ser artista, mudou-se para Nova York, onde passou a trabalhar e ser reconhecido. Mantém ateliês em Nova York, Rio e Salvador. Suas obras integram acervos de instituições como Centre Georges Pompidou (Paris), Museo Reina Sofía (Madri), Museum of Contemporary Art (Tóquio), Solomon R. Guggenheim Museum e Museum of American Art (Nova York), e Tate Gallery (Londres).

O documentário "Lixo Extraordinári", sobre seu trabalho colaborativo no aterro sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), foi indicado ao Oscar em 2010. Muniz também se destaca por projetos sociais: fundou a Escola Vidigal, que oferece atividades extracurriculares em arte, design e tecnologia para crianças da favela Vidigal, e abriu o Lugar Comum, uma galeria de arte contemporânea instalada no Mercado São Joaquim, em Salvador. Em reconhecimento a essas contribuições, foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da Unesco.

No fim do percurso da exposição, o público verá uma linha do tempo sobre a trajetória de Vik Muniz, com monitores de vídeo exibindo as séries "Shadowgrams", "Imagens de Linha", "Imagens de Arame", e uma entrevista com o artista. Após setembro de 2026, "Vik Muniz - A Olho Nu" seguirá para o CCBB Brasília e em março de 2027 para o CCBB Belo Horizonte.

SERVIÇO

VIK MUNIZ - A OLHO NU

CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)

Até 7/9, quarta a segunda (9h às 20h) | Entrada franca