Kobra leva a leitura para os muros do Centro

Recordista mundial com mural na Zona Portuária, artista paulista cria nova obra de 255 m² para parede da Biblioteca Parque Estadual

Por Affonso Nunes

Eduardo Kobra em seu atelier: o artista tem inúmeros grafites espallhados pelo mundo

Recordista mundial com mural na Zona Portuária, artista paulista cria nova obra de 255 m² para parede da Biblioteca Parque Estadual

O Centro do Rio de Janeiro ganhará, em breve, nos próximos dias, mais uma obra monumental do grafiteiro Eduardo Kobra. Aos 50 anos, o paulistano iniciou nesta semana a pintura de um mural de 15 por 17 metros (255 m²) na Biblioteca Parque Estadual, equipamento cultural localizado na Avenida Presidente Vargas. A iniciativa integra a campanha "Literatura: do Rio ao RJ", promovida pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, e dialoga diretamente durante a vigência do o título de Capital Mundial do Livro, conferido pela Unesco à cidade. A inauguração está prevista para 2 de fevereiro.

O artista, que acumula mais de três décadas de carreira e detém dois recordes mundiais por trabalhos de grandes dimensões, construiu sua trajetória justamente na tensão entre a arte urbana e os espaços públicos. Nascido em 1975 na periferia de São Paulo, Kobra transformou muros e empenas em telas que dialogam com transeuntes de diferentes origens sociais, levando arte para além dos circuitos tradicionais de galerias e museus. Com mais de 500 obras espalhadas pelos cinco continentes, ele se tornou um dos nomes mais reconhecidos da street art mundial, com murais em países como Estados Unidos, França, Espanha, Itália, Japão e Índia.

No Rio, Kobra já deixou marcas profundas na paisagem urbana. A mais emblemática delas é o painel "Etnias - Todos Somos Um", criado em 2016 para os Jogos Olímpicos e instalado no Boulevard Olímpico, na Zona Portuária. Com 3 mil metros quadrados, a obra representa rostos de indígenas dos cinco continentes e entrou para o Guinness Book como o maior grafite do mundo. A técnica característica de Kobra - que combina cores vibrantes, geometrias caleidoscópicas e um estilo hiper-realista - transformou aquele trecho da Praça Mauá em um dos pontos mais fotografados da cidade. Mais recentemente, em 2023, o artista prestou homenagem à jornalista Glória Maria com um mural no Parque Municipal que leva seu nome, em Santa Teresa.

O novo trabalho na Biblioteca Parque Estadual ficará localizado na área interna do prédio, no espaço que dá acesso à parte anexa. Durante a execução, os andaimes permanecerão cobertos com telas de TNT, estratégia que mantém o mistério sobre a composição até o dia da inauguração. O tema central, segundo informações da Secretaria de Cultura, será a leitura - assunto que parece mobilizar o próprio artista de forma especial.

"O Rio é um Estado em que eu tive a honra de criar uma das obras mais marcantes da minha carreira, na zona portuária da capital. Recebi esse convite para criar esse mural no Centro com muito orgulho e muita responsabilidade. Pintar uma Biblioteca Parque Estadual é algo muito inspirador, e eu realmente quero criar algo que convide as pessoas que passam ali, seja de carro, seja vindos da mítica Central do Brasil até a gigantesca Presidente Vargas, enfim, que lembre essa gente de todos os cortes sociais que ter um livro na mão é sempre a melhor e mais importante viagem", afirmou Kobra, que é autodidata.

"Receber uma obra de um artista da dimensão do Kobra em um equipamento público tão simbólico como a Biblioteca Parque Estadual reforça o nosso compromisso com a democratização do acesso à cultura e com a valorização do livro e da leitura. Neste ano em que o Rio é Capital Mundial do Livro, essa entrega representa a união entre arte urbana, educação e cidadania, aproximando ainda mais a população dos espaços culturais", festeja a secretária estadual de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros.

A intervenção de Kobra na Biblioteca Parque Estadual se soma a uma série de ações que a gestão estadual vem promovendo para dar visibilidade ao título de Capital Mundial do Livro, que o Rio detém desde o ano passado. A programação inclui feiras literárias, seminários, oficinas e projetos de incentivo à leitura em comunidades e escolas públicas.