O que o Rio ainda pode vir a ser
Exposição 'Vir a Existir' reúne obras de 40 artistas no casarão do Museu Histórico da Cidade
Uma coletiva de 40 artistas ocupa a partir o casarão do Museu Histórico da Cidade, no alto do Parque da Cidade, na Gávea. Com curadoria de Julie Brasil, "Vir a Existir" faz do Rio de Janeiro o centro da mostra, mas não o lado cartão-postal da cidade, mas o Rio da arquitetura, da natureza, da religiosidade, da cultura popular e do cotidiano.
Inaugurado em 1934, o museu preserva a memória da cidade que foi capital da colônia, do império e da república, e guarda um acervo de cerca de 24 mil peças — gravuras, aquarelas, fotografias e objetos que narram sua história desde 1565. No espaço que contou o que a cidade foi, a curadoria de Julie Brasil pergunta o que ela ainda pode ser.
"Existir é colocar-se para fora, aparecer no mundo. Mas antes de existir, é preciso inventar. Entre o achado e a invenção há uma dobra: tudo o que se inventa já estava ali, à espera de um olhar disposto a tropeçar nele. O que, em você, está por vir a existir?", questiona Julie Brasil.
O destaque nasceu de uma encomenda impossível de repetir: Marcelo Albagli criou para o vão da escada do casarão uma instalação site specific em que uma grande pedra desenhada sobre papel gampi — o fino papel japonês que ele vem explorando em obras como "Kitakata" — parece flutuar no ar. A pedra, a escada antiga e a luz da Gávea se encontram num equilíbrio que nos daz pensar.
A geração que abre caminho na mostra carrega a trajetória da arte carioca nas costas. Luiz Aquila, 83 anos, pintor que entre 1979 e 1986 ensinou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e se tornou orientador artístico da Geração 80, apresenta trabalhos de sua investigação da cor e da luz. Milton Machado, de 79, formado em arquitetura antes de se voltar à investigação conceitual, e autor há três décadas da série "História do futuro", sobre uma cidade fictícia, empresta seu olhar de quem desenha o urbano como ficção. John Nicholson completa o núcleo dos veteranos, ao lado de nomes de novas gerações: Adriana Macedo, Alvaro Seixas, Ana Bárbara, Ana Regal, Bruno Miguel, Felipe Ocosta, Joana Kieppe e Toko, entre outros.
Os mais jovens respondem pela parte mais territorial da exposição. Ana Bárbara observa há tempos a transformação imobiliária da própria Gávea e leva ao museu esse olhar de dentro. Bruno Miguel, Álvaro Seixas e Toko seguem por caminhos diversos, do humor ao registro do sagrado popular. A soma forma, na definição da curadoria, um inventário poético da cidade e de seus habitantes.
A ligação entre os 40 nomes passa pelo Cedro da Gávea, ateliê e espaço de formação dirigido por Beth Rocha, onde professores e alunos cruzam rotina de oficina e produção autoral. A mostra integra ainda o Circuito Gávea da ArtWeek Rio / Semana de Arte do Rio, que espalha iniciativas culturais pela cidade durante a semana das feiras.
SERVIÇO
VIR A EXISTIR
Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro (Estr. Santa Marinha, s/nº, Gávea)
Até 8/11, de terça a domingo (9h às 16h) | Grátis