Amazônia no feminino

'Amazônicas: Poéticas Femininas' reúne no CCBB Rio 80 obras de 21 artistas do Pará, Acre e Amazonas e percorre cinco décadas de produção artística da região Norte

Por Affonso Nunes

A feiticeira branca (2021)

A Amazônia que ocupa o segundo andar do Centro Cultural Banco do Brasil se oferece muito álém de sua exuberante paisagem. Floresta, território e natureza estão presentes, mas dividem espaço com corpos, memórias, ancestralidades, identidades, conflitos e experiências de mulheres que vêm construindo a arte da região Norte nas últimas cinco décadas. Em cartaz até 16 de novembro, "Amazônicas: Poéticas femininas" reúne 80 obras de 21 artistas do Pará, Acre e Amazonas, numa exposição que reivindica um olhar feminino sobre um território tantas vezes representado de fora para dentro.

Idealizada pelo Museu das Mulheres (Museu DAS), a mostra chega ao Rio depois de passar por Belém, Fortaleza e Brasília. A curadoria e a direção artística são de Sissa Aneleh, que há 16 anos pesquisa a produção de mulheres da arte amazônica. Pintura, escultura, fotografia, gravura, objeto, arte digital e videoarte formam um panorama que parte dos anos 1970 e alcança a produção contemporânea.

"A Amazônia é o verdadeiro ventre do Brasil e do mundo", diz Sissa.

A curadora propõe deslocar a região da condição de simples tema ou cenário para percebê-la como território produtor de linguagens, conhecimento e experiência estética. É a partir desse princípio que trabalhos de artistas de diferentes gerações são organizados em quatro núcleos: "Materialidades Ancestrais", "Gravura Feminina", "Amazônia Pictórica" e "Performáticas".

Fundadora e diretora do Museu das Mulheres, Sissa é historiadora da arte, mestre e doutora em Artes. Já realizou a curadoria de mais de 17 exposições e levou mostras com artistas brasileiras para instituições e eventos na Alemanha. Sua pesquisa passa pela história da arte, produção de mulheres artistas, arte brasileira e decolonial, cinema autoral feminino e poéticas curatoriais. É dessa trajetória que nasce o esforço de "Amazônicas" para aproximar produção estética e reconstrução histórica.

No primeiro núcleo, "Materialidades Ancestrais", a memória ganha corpo por meio da matéria. As cerâmicas táteis de Lise Lobato criam um repertório simbólico ligado a nascimento, transformação, espiritualidade e ciclos da vida. Na série "Revoltosas", Cristiane Martins constrói figuras escultóricas atravessadas por mitologias indígenas, feminilidade ancestral e forças associadas à floresta. A matéria deixa de funcionar apenas como suporte para se tornar depósito de memória e elo entre tempos distintos.

Em "Gravura Feminina", a impressão passa a ser instrumento de identidade e permanência. As xilogravuras de Elieni Tenório investigam o corpo feminino, seus limites e sua ocupação do espaço social. Maria Auxiliadora Zuazo aproxima feminino, natureza e liberdade em figuras híbridas, enquanto Elaine Arruda explora texturas, abstrações e densidades. A gravura surge, assim, não apenas como técnica, mas como registro da presença das mulheres na história artística da região.

A pintura domina "Amazônia Pictórica". Elieni Tenório volta a aparecer, desta vez em trabalhos voltados para identidade e subjetividade. Nina Matos percorre memória, deslocamento e afetividade, enquanto Sanchris trabalha paisagens simbólicas relacionadas à reconstrução e à diversidade do corpo feminino. Rita Loureiro, Lise Lobato, Bárbara Savannah, Rafaela Moreira, Auá Mendes e Wira Tini ampliam esse repertório com obras atravessadas por espiritualidade, cotidiano, pertencimento e identidade amazônica.

"A Amazônia não é paisagem: é experiência imagética, memória, símbolo e linguagem", sintetiza Sissa.

O corpo assume o protagonismo no núcleo "Performáticas". Nas fotoperformances de Renata Aguiar, mitologias femininas e espiritualidades ancestrais retornam como elementos de uma investigação sobre o território. Keila-Sankofa trabalha identidade, memória e ancestralidade a partir da ideia do corpo como arquivo vivo. Já Lúcia Gomes, na série "Mênstrua, Monstro, Monstra, Mostarda", transforma o corpo feminino em espaço político e discursivo, confrontando tabus e silêncios. Rafa Bqueer, Val Sampaio, Rafaela Kennedy e Wira Tini completam um segmento em que gesto e presença são tratados como formas de resistência.

Ao atravessar esses quatro eixos, a exposição reúne questões de gênero, regionalismo, identidade nacional e diversidade sem buscar uma imagem homogênea da produção amazônica. A própria variedade de suportes e linguagens funciona contra essa simplificação. Ancestralidade indígena e afro-brasileira convivem com artivismo, tecnologia, afetividade e investigações biográficas.

Essa aproximação entre memória ancestral e tecnologia ganha outra dimensão no "Espaço Petrobras Amazônicas". O ambiente utiliza realidade expandida, virtual e aumentada para permitir uma experiência imersiva com óculos 3D. O visitante pode percorrer imagens em 360 graus, assistir a um filme em realidade virtual e visualizar algumas das obras em ambiente expandido.

A participação do público também alimenta "Mensagem para a Amazônia", obra coletiva em vídeo construída ao longo da itinerância da mostra. Visitantes são convidados a deixar registros sobre a importância da preservação ambiental, que passam a integrar o trabalho. A exposição oferece ainda obra tátil, audiodescrição e intérprete de Libras, além de visitas guiadas, encontros com artistas e lançamento de catálogo.

A dimensão formativa se estende a oficinas de economia criativa dirigidas especialmente à capacitação profissional de mulheres interessadas em áreas técnicas e artísticas das artes visuais. Para crianças e adolescentes, "Sons da Natureza" propõe uma experiência sensorial com réplicas de esculturas inspiradas em sementes e sons de animais do Marajó. Escolas e outros grupos também poderão participar de visitas mediadas durante a temporada.

Ao reunir gerações, linguagens e territórios distintos, "Amazônicas" procura inverter uma perspectiva recorrente: em vez de mulheres aparecerem como personagens de uma Amazônia observada por outros, são elas que elaboram suas próprias imagens do território. Da cerâmica à realidade virtual, do corpo à gravura, a exposição coloca essas artistas na condição de autoras de uma Amazônia que é simultaneamente memória, experiência presente e campo de invenção.

SERVIÇO

AMAZÔNICAS: POÉTICAS FEMININAS

CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)

Até 16/11, de quarta a segunda (9h às 20h) | Grátis