A calmaria ficou de lado

Na individual 'Tormenta', o artista Thomaz Velho reúne pinturas, desenhos e obras de grande formato na Casa Brasil

Por Affonso Nunes

Thomaz Velho em seu novo atelier: o pé direito alto lhe permitiu um estudo de escala como se vê nas telas de grandes proporções que compõem a exposição

A pintura de Thomaz Velho ganhou velocidade, escala e cores menos conciliadoras. É esse deslocamento que "Tormenta", primeira exposição individual do artista carioca, apresenta na Casa Brasil, no Centro, até 6 de setembro. São 11 obras, entre inéditas e trabalhos dos últimos anos, feitas em acrílico, desenho e pintura, algumas com até três metros de altura. A tormenta em questão se relaciona a uma mudança de ritmo no ateliê e na própria trajetória do artista.

Velho levou a produção para um antigo galpão de fábrica de tecidos desativada no Rio Comprido. O pé-direito alto do novo espaço criou uma espécie de ensaio para a nave principal da Casa Brasil, onde a individual ocupa agora uma escala incomum em sua obra. A mudança de ambiente aparece no corpo da mostra: as composições deixam a gradação suave de trabalhos menores para explorar vermelho, amarelo, superfícies densas e uma gestualidade mais urgente. A pintura, aqui, parece menos interessada em sossegar o olhar do espectador.

"Tormenta é, sem dúvida, uma mudança no direcionamento do meu trabalho, com um processo avassalador na produção das obras, deixando a calmaria de lado", afirma Velho. "Há alguns anos, deixei o mercado de produção e audiovisual para viver esse sonho", conta o artista que reorganizou suas referências e sua relação com a matéria.

Velho começou cedo a desenhar e, ainda adolescente, frequentou aulas de modelo vivo com Orlando Molica, no Parque Lage. Mais tarde, formou-se em Artes & Design, trabalhou como assistente de Carlos Vergara e passou oito anos como cenógrafo e diretor de arte na TV Globo. Também fundou a empresa Capavé, de projetos, e assinou trabalhos com Paula Águas na Casa França-Brasil. Esse trânsito entre desenho, cena, projeto e imagem construída reaparece em "Tormenta", uma experiência de escala na qual cor e composição se encontram na pintura.

A produção de Velho já atravessava acrílica e óleo sobre tela, instalações em papel de arroz, aquarelas, grafite e ilustração editorial. Nesta individual, os planos se aproximam da arquitetura. Há nas obras ecos de paredes de cal, fachadas históricas e geometrias da construção vernacular, mas a referência nunca se resolve em figura reconhecível. Urbanidade e natureza aparecem como camadas de uma mesma superfície, numa espécie de excesso controlado em que o gesto pictórico se torna imagem.

Para a curadora Adriana Nakamuta, a força da Casa Brasil também ajuda a ler o momento do artista. "O trabalho autoral do Thomaz será muito bem-vindo junto com a força popular da Casa Brasil, que atrai um grande público em seu novo formato, exaltando as artes brasileiras e do Rio", diz. Ela identifica na exposição uma transição clara: "Thomaz utiliza cores mais vibrantes, como vermelho e amarelo, em vez da gradação suave das pequenas pinturas. É uma transição, com um ritmo e uma paleta diferentes e, ainda, com o desafio de formatos de grande escala nessa nova fase de sua trajetória."

A ampliação física das obras pedem distância ao serem obsrvadas, mas demandam aproximação para perceber a matéria, os encontros de cores e o que há de instável em cada estrutura. O artista troca a tranquilidade de uma pintura mais contida por uma imagem em estado de elaboração, na qual a energia do processo permanece visível.

SERVIÇO

TORMENTA

Casa Brasil (Rua Visconde de Itaboraí, 78, Centro)

Até 6/9. De terça a domingo, das 10h às 17h

Entrada gratuita