Guggneheim de Abu Dhabi, o colosso dos Emirados
Após sequência de atrasos em sua construção, o museu tem sua inauguração confirmada para o dia 11 de dezembro
Depois de décadas de atrasos, o Guggenheim Abu Dhabi tem data marcada para abrir as portas: 11 de dezembro de 2026, na Ilha Saadiyat, nos Emirados Árabes Unidos. Frank Gehry, o arquiteto que concebeu o edifício, não viveu o bastante para vê-lo pronto — morreu em dezembro de 2025, aos 96 anos, deixando como último grande projeto aquele que será o maior museu da rede Guggenheim, superando em escala os de Nova York, Bilbao e Veneza. O projeto foi anunciado em 2006.
Foram duas décadas conturbadas com adiamentos, suspensões, imbroglios trabalhistas e boicotes. Mas prevaleceu a ambição cultural que transformou um trecho de deserto litorâneo em um dos distritos de arte mais concentrados do planeta.
O edifício ergue-se na ponta noroeste de Saadiyat, a poucos quilômetros do centro de Abu Dhabi, como uma escultura de proporções colossais. São 30 galerias em 11.600 metros quadrados de área expositiva interna, complementadas por 23 mil metros quadrados de espaços ao ar livre — somados aos 80 mil metros quadrados de área construída total, fazem do projeto algo mais próximo de uma cidade da arte do que de um museu convencional. Gehry, que já havia desenhado o Guggenheim Bilbao, concebeu para Abu Dhabi algo diferente de suas formas sinuosas habituais: dez cones escultóricos, nove revestidos em malha de aço inoxidável e um em ônix e vidro, alcançando até 88 metros de altura. A inspiração veio das torres de vento e pátios cobertos tradicionais do Golfo Pérsico — dispositivos de ventilação natural que, reaproveitados em escala monumental, conferem ao edifício identidade regional sem sacrificar a assinatura inconfundível de Gehry. O resultado, como ele descreveu ao The New York Times em 2014, busca alcançar clareza por meio de uma "desordem intencional". Oximoro no mais puro estilo Gehry.
O acervo é tão ambicioso quanto o projeto do prédio. Formada desde 2009, a coleção deverá contar inicialmente com cerca de 970 obras — pintura, escultura, instalação, fotografia, vídeo e novas mídias produzidas a partir de 1960. A aposta curatorial adotou um viés transcultural: mais do que replicar o cânone ocidental modernista, o museu promete dar destaque a artistas da Ásia Ocidental, Norte da África e Sul da Ásia — regiões frequentemente marginalizadas nas narrativas hegemônicas da arte contemporânea. Duas mostras prévias, em 2014 e 2017, já deram ao público uma amostra do que está por vir, com obras de Anish Kapoor, Larry Bell e Monica Bonvicini. Detalhes sobre o acervo final e encomendas serão divulgados nos próximos meses, segundo o governo local — informação que, a esta altura, permanece discretamente sob embargo.
A construção, iniciada em 2011, foi suspensa ainda naquele ano — a primeira de uma série de paradas e retomadas que empurraram a inauguração de 2012 para 2017, depois 2022, 2025, e enfim 2026.
A maior controvérsia não veio do calendário. Em 2011, mais de 130 artistas internacionais assinaram um manifesto de boicote ao novo Guggenheim — e ao Louvre Abu Dhabi, que enfrentava problemas semelhantes. As denúncias, documentadas por relatórios da Human Rights Watch e por reportagens investigativas, eram graves: operários migrantes, em sua maioria sul-asiáticos, tinham passaportes confiscados pelos empregadores, salários retidos e jornadas exaustivas, em condições que lembravam trabalho forçado. A Gulf Labor Coalition, fundada em 2011 em Nova York, organizou protestos dentro da própria rotunda do Guggenheim na Quinta Avenida e durante a Bienal de Veneza. Walid Raad, artista libanês-americano e um dos nomes mais respeitados do circuito internacional contemporâneo, tornou-se figura central do movimento — e, em maio de 2015, foi impedido de entrar nos Emirados Árabes ao chegar a Dubai, colocado num voo de volta aos Estados Unidos. Dezenas de diretores de museus assinaram carta de protesto contra a restrição.
O Guggenheim não é o primeiro museu com marca ocidental a se instalar no emirado. O Louvre Abu Dhabi, projetado por Jean Nouvel e inaugurado em 2017, trilhou o mesmo caminho: anunciado em 2007, sofreu adiamentos semelhantes e abriu uma década depois, custando cerca de um bilhão de dólares em direitos de uso do nome e empréstimos de acervo. O modelo de "franquia cultural" tem críticos e defensores. Para uns, exporta capital simbólico ocidental a regiões sem tradição museológica equivalente. Para outros — como Mariët Westermann, diretora e CEO da Fundação Guggenheim, que descreveu o acervo como "unicamente local e global, centrado na região, mas com obras de todos os continentes" —, é uma forma de descentralizar o cânone e dar voz a produções historicamente invisibilizadas.
A Ilha Saadiyat está se tornando um distrito cultural que, quando completo, concentrará cinco grandes museus — Louvre, Guggenheim, Zayed National Museum (Foster Partners), Natural History Museum Abu Dhabi e teamLab Phenomena — num raio de poucos quilômetros. Abu Dhabi prometeu investir US$ 6 bilhões em indústrias criativas nos próximos cinco anos.