E a pedra de Sísifo foi parar na Baixada

Videoinstalação de Fabiano Mixo estreia no Sesc Nova Iguaçu

Por Affonso Nunes

Cena da videoinstalação 'Sísifo', que leva a pedra da mitologia grega para ser empurrada por uma mulher na Baixada Fluminense

Videoinstalação de Fabiano Mixo estreia no Sesc Nova Iguaçu

O que significa empurrar uma pedra montanha acima em 2026? Para o cineasta Fabiano Mixo, nascido em Nova Iguaçu e radicado em Berlim, a resposta é visceral - e literal. Nesta sexta (27), o Sesc Nova Iguaçu abre as portas para "Sísifo", uma videoinstalação que funde cinema imersivo à paisagem do bairro de Três Corações, na Baixada Fluminense. Trata-se da estreia do artista em solo fluminense, um retorno às raízes que marca também sua afirmação como criador de tecnologias imersivas.

Mixo constrói sua carreira nas margens da indústria audiovisual tradicional. Trabalhos seus passaram por Tribeca (Nova York), Berlinale Talents e MIT Open Documentary Lab. Recebeu o Lumen Prize (Londres) e reconhecimento da Associação Alemã de Críticos de Cinema no European Media Art Festival. Agora, em vez de buscar circuitos europeus, escolhe produzir integralmente no território onde nasceu — e isso muda o significado da obra.

A videoinstalação é protagonizada pela atriz Anna Marcia Mixo, mãe do diretor, em seu primeiro trabalho ao lado do filho. Sua presença na tela transforma o esforço cíclico de Sísifo em experiência de humanidade — apenas o corpo de uma mulher enfrentando o impossível.

O núcleo criativo reúne artistas da região. Raimundo Rodriguez, responsável pela direção de arte, esculpiu uma pedra monumental em caráter hiper-realista que funciona como transição entre a projeção e o espaço físico. Rodriguez vem de produções como "Hoje é dia de Maria" e "A Pedra do Reino". "A pedra de Raimundo não é um adereço; ela é uma presença viva que permite ao público dimensionar o esforço físico da personagem", explica Mixo.

A curadoria é de Rebeca Brandão. O projeto foi selecionado pelo Edital Sesc RJ Pulsar, que financiou a produção.

Há uma operação conceitual clara aqui. Mixo reinterpreta Sísifo não como condenação existencial, mas como persistência — aquela que caracteriza a labuta diária do brasileiro. "Em 'Sísifo', a condenação vira persistência. É a liberdade de criar o próprio propósito em meio ao que parece sem sentido", explica o diretor, ecoando Camus. O mito grego, portanto, deixa de ser metáfora europeia e vira espelho da Baixada.

SERVIÇO

SÍSIFO

Sesc Nova Iguaçu (Rua Dom Adriano Hipólito, 10 - Moquetá) | De 27/3 a 26/4

Entrada franca